José Maria Barcia @ 20:35

Sab, 14/04/12

 

 

É uma estátua sentada

À espera e até já viu porrada.

É o Álvaro, o Bernardo e tantos outros,

Sentados, à espera.

Mão altiva sem companhia,

Um banco preenchido

Por fotógrafos estrangeiros

Que sentem o cobre da pessoa Pessoa.

Fernando, estás a ver o Chiado?

E o Camões ao pé de ti?

A estátua do Pessoa está sentada à espera.

Puseram-te de perna traçada e olhar infinito,

Ao menos em pé,

Que te fazia justiça ao apelido.




José Maria Barcia @ 03:52

Ter, 10/04/12

Coragem não é ser inconsciente. Muito pelo contrário é saber de antemão tudo o que pode acontecer. Ser bravo de espírito e de alma em nada se relaciona com feitos heróicos e imortais. Ser corajoso é, ao mesmo tempo, mais e menos que isso. Mais porque se sobrepõe a actos singulares de uma ou outra coisa valente. Menos pois não é preciso tanto.

 

Ser corajoso é enfrentar as consequências que o nosso mais mísero acto acarreta. Ser bravo é arriscar, muitas vezes sabendo que a estatística joga contra nós. Ser assim é amar sem amanhã. É passar um mês e que esse seja o último - mesmo que não seja.

 

Ser corajoso é não escrever o resto deste texto e ir dizê-lo.




José Maria Barcia @ 13:35

Seg, 09/04/12

Dizem que a vida acaba na morte e a morte é o fim último. E estar vivo é o contrário de estar morto e que devemos respeitar a memória de quem morre do modo mais pesaroso possível.

Tudo errado. Primeiro, viver não acaba em morrer. Viver acaba no esquecimento. Essa é a real imortalidade: memória. Viver é, depois de morrer, estar na cabeça de quem merece. Entretanto, o luto deve ser feito, óbvio, mas depois há que saber aproveitar a memória. De preferência da melhor maneira, com um sorriso, e ainda melhor, com um riso. Há que saber gozar com o pior que pode acontecer aos nossos. E por gozar não se entenda uma manifesta falta de respeito, pelo contrário, é por Amor que isso se faz. Ora veja-se, passar por um situação e rir sabendo de antemão o que a pessoa que já foi iria fazer. Isso é respeito. É cagar a rir imaginando que a própria pessoa gozaria com o próprio funeral. Propriamente apropriado da própria morte, se pudesse ver o meu funeral pregaria partidas a quem me fosse visitar. E deixaria uma carta aos meus amigos e família. Qualquer coisa como ‘’Eu morro, mas vocês vão-se rir quando deviam estar a chorar’’.

Tratar a morte com demasiado respeito faz mal. A morte devia levar um murro no nariz. E, sangrando no chão, um pontapé nas costelas. E porquê? Porque a puta é inevitável. Como tal, enquanto puder, vou tratá-la mal. Pancada nela que ela merece.

Quando morrer vou deixar um testamento todo bonito, com advogado e tudo. No fim, há-de estar um post scriptum declarando que estava a gozar e que a fortuna amealhada era falsa. Apanhei-os pela última vez, talvez. Depois peço a alguém para entregar o verdadeiro testamento, uma espécie de guest list reservada para minha casa com uma garrafa de água para cada um dos convidados. Essa é a minha herança, água. Quem não entender não recebe o resto.

Ainda há outra coisa sobre falar em morte. É como falar sobre sexo – toda a gente sabe falar, nem todos sabem fazê-lo. Não há vivalma que não tenha histórias mirabolantes de aventuras no estrangeiro com esta ou aquela ou ainda o outro. Como também não deve haver quem não encara a morte do seu ponto de vista. Sejam corajosos, cobardes, respeitosos ou católicos ou outra treta qualquer. Como no sexo, ninguém é como diz.

A morte, tal como o sexo, é fodido. O que não quer dizer que até ao momento não se possa gabar e palhaçar o tema. Até ao momento. Quando ele chegar, logo se vê quem aguenta a pancada.




João Gomes de Almeida @ 23:24

Qua, 28/03/12

São tantas as vezes em que estamos cansados. São tantas as vezes em que não fazemos um gesto largo. São tantas as vezes que deixamos as mais variadíssimas coisas por dizer às pessoas de que gostamos. São tantas as vezes que vivemos obcecados com nós próprios. São tantas as vezes que não paramos para pensar no que é nosso. São tantas as vezes que nos sentimos sem forças. E é em todas essas vezes que o que mais interessa dizer é "amo-te".




José Maria Barcia @ 14:57

Sab, 24/03/12

A partir de certa idade é razoável partir do princípio que toda a gente tem problemas. Há maiores e menores: são conhecidos como ''bagagem''. Uma mala enorme que vem mais ou menos escondida e que se vai revelando à medida proporcional ao descobrimento do outro.

 

Os dramas e os problemas são parte inerente e fio condutor da personalidade de cada um. Embora uns possam ser considerados o fim da estrada para uma relação (seja de que tipo for) , outros fazem aquilo que os problemas têm de melhor: uma aproximação entre duas pessoas da melhor maneira.

 

Explico. Se partilhar glórias e qualidades é, digamos, porreiro, discutir e debater problemas e bagagens é quase infinito. Enquanto na primeira conversa, o raio de acção acaba num ''Oh, que giro'' ou ''Não posso, fantástico'', entrar de peito aberto nos problemas alheios é equiparável a mergulhar no meio do oceano. Naquele meio sem ilhas ao pé, sem salvação possível.

 

O mistério no outro, faz procurar mais. E melhor, faz tentar ajudar. Se fores bom, vais querer ajudar. Se fores bom e o outro te interessar, vais ajudar. A capacidade de ajudar parte de um princípio de superioridade. Só posso ajudar se aquele problema específico não me causar grandes maçadas. Ao início, claro está. A jusante, é suposto o problema engolir os dois intervenientes. E nesta englobalidade problemática, cria-se a relação entre essas duas pessoas.

 

Aparentemente, é assim. As relações duradouras estabelecem-se com base em problemas. São as malas e sacos que fundamentam as boas relações pois é aí que dois se juntam para combater um.




João Gomes de Almeida @ 18:25

Seg, 19/03/12

As melhores palavras sobre o nosso pai são aquelas que nunca escrevemos. Por muito pouco trôpega que seja a nossa escrita, torna-se sempre pequenina, quase inútil, perante a força do que gostaríamos de transformar em palavras bonitas o quanto bastem para poderem honrar o nosso pai. É sempre tudo tão redondo, lamechas e piegas, que poucos são aqueles que se atrevem a pôr em linhas o sentimento mais puro que temos dentro de nós: a filhelhidade

 

O Herberto dizia que "a mãe é mais alta coisa que um homem cria". Este verso é como que assassino, capaz de num tiro matar todos os argumentos possíveis sobre o sentido da vida. Ao nascermos, como nos diz Herberto, já cometemos o maior dos nossos feitos: fizemos nascer uma mãe. Tudo o resto é pura imagem, sacanagem e mundo, o resto do mundo. Os maiores seres da história da humanidade, por muito que tenham feito, nunca suplantaram o seu primeiro acto em vida - dar à luz a própria mãe.

 

No entanto, por norma, subestimamos a paternidade. Ser pai é bastante mais difícil do que ser mãe - digo-o sem nunca o ter sido. À mãe une-nos o cordão umbilical, as primeiras refeições, a ternura própria da maternidade e todo o imaginário que a humanidade foi construindo em volta da figura maternal. A Virgem Maria está em destaque na Sagrada Família, enquanto o pobre do José é arrastado para um espectro secundário. Sempre assim foi.

 

À mãe, na maioria das vezes, basta-o ser. Ser pai é um acto de conquista. Nunca deixará de ser um acto de afirmação, uma luta constante e desigual em competiçao com a mãe. Os pais não podem dar à luz, e é nesse momento que são empurrados para o papel secundário. Muitas vezes acabam por se transformar em actores principais - mas nunca nenhum o conseguiu sem muito esforço, suor e lágrimas.

 

O meu pai tem o mérito de nunca ter sido um actor secundário e nunca ter tentado obter o papel principal. Orgulha-me pensar que sempre substitui a rigidez e disciplina típicas da paternidade, pela ternura, carinho e apoio, típicos da amizade e do amor. Liderando o lar pelo exemplo e estando sempre ao meu lado, mesmo nos momentos em que eu não estava ao seu lado. Ensinando-me que no amor o mais importante é sermos incondicionais. Independente do que se tem em troca, dos erros, do passado e do resto da vida. Ser pai é isso mesmo, amar incondicionalmente.

 

Pai, é por ti que quero um dia também eu ser pai. Para continuar o que me ensinaste. Incondicionalmente. 


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Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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