teresanicolau @ 14:58

Dom, 02/10/11

Por razão que me preenche todos dias, costumo falar de pessoas que morreram sempre por aquilo que viveram. Nunca gostei de obituários, ainda que reconheça que é uma arte, que apenas poucos, como o embaixador Cutileiro, conseguem. Como nunca cheguei de perto, pego na experiência da vida e já está. Mas hoje não.

Morreu sim, o Duda Guennes e dito aqui, mais parece ter sido assídua leitora do jornal "A Bola" desde os anos 1980, em que escrevia, tendo sido o mais antigo cronista deste diário desportivo. Aconteceu sim, que conheci o Duda, nos corredores da lusófonia, quando África se ouvia todos os meus dias e a poesia deste senhor me chegava sempre em sorriso. Com a morte do Duda, desaparece também essa minha vida de ventos quentes, de frutas doces e peixes voadores, entre cores de Kiki Lima e riscos de Malangatana. Agualusa, sabe descrever, bem melhor do que eu. Mas essa coisa de ter ainda um mundo que já foi dentro de nós, é pesado. Tantas vezes, olho para objetos cá de casa, relanço memórias e penso: "aquela vela, comprei-a a pensar em ti". E deito-a fora? Com a morte do Duda, desfaço-me desse mundo que tanto gostei, não por desprezo, mas porque a angústia de já não o ter, me faz acordar à noite. E Duda era meu amigo. Daqueles que podem dizer tudo. Mesmo o maior elogio (def. pessoal desta palavra: sempre de desconfiar), mesmo de praia ou outra felicidade qualquer. O Duda era o meu Eduardo Prado Coelho do futebol. As histórias rolavam sempre como uma bola feliz e o árbitro poderia transformar-se numa anedota. Com o Duda, o treinador poderia ser um deus ou um Dom Juan, perdido no relvado, de olhos postos na bancada das moças. Mas também seria capaz de fazer chorar de emoção, por um relato de pés perfeitos. O Duda sabia. Que eu não sabia nada de futebol. E ainda assim, era meu amigo. Há anos que não vejo o Duda. E agora, não vou ver mais.

 



Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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