Ana Santiago @ 01:07

Sex, 07/10/11

Era para ser sobre o senhor simpático da bomba de gasolina da Via Rápida da Caparica que me vende tabaco e me vende a ideia de deixar de fumar. É um ser bonito. Também pensei ser sobre os homens artistas, mas fica para outro dia.

Enlouqueci. A minha terceira Polaroid, afinal, é a minha versão de um dos textos mais lidos na blogosfera, na rede, no Facebook, no mundo (o Alvim gostará que eu diga isto). Ainda não leram? Fica aqui o link: http://esperobemquenao.blogspot.com/2007/12/esta-coisa-de-gostar-de-algum.html

 

Juro que deixei de ir à “Festa do Cinema Francês” no Cinema S. Jorge (que aliás recomendo vivamente) para dedicar-me a isto. Também estava um bocadinho cansada. É verdade. Não sou de ferro. Não tenho o dom da ubiquidade. Que triste realidade.

 

Esta coisa de gostar de alguém.

 

Quando gostamos de alguém não anunciamos aos amigos: “Gosto de uma pessoa”. Dizer “uma pessoa” é despersonalizarmos a questão. É uma defesa. É entrar a medo no sentimento. E o medo, como diz o O’Neill, faz-nos chegar a ratos. Quando gostamos de alguém dizemos o nome, completo de preferência. Aí, então, já é um caso irremediável de entrega do coração numa bandeja. Deus lá estará para acudir-nos. Creio. Quando gostamos mesmo de alguém dizemos: “Gosto do(a) x.” Ponto.

 

Quando gostamos de alguém, podemos ficar sem rede e sem bateria e sem saldo. A mim acontece-me frequentemente. E sempre nas alturas mais importantes da comunicação. A minha mais recente aquisição no círculo feminino também sabe disso: “Às vezes não tenho mesmo rede, às vezes estou mesmo ocupada e tenho outras coisas que fazer”. A J. sabe.

 

Quando gostamos de alguém, o alguém confia, sabe que se não atendemos ou não respondemos logo é porque alguma coisa na teia infinita dos múltiplos afazeres de cada um nos impediu de responder ou estar online. E não é porque essa coisa é mais importante que ele ou ela, é porque a vida também é feita de trabalho, de idas ao banco, de chatices e de reuniões que não acabam de acontecer na nossa agenda. Da mãe que nos pede ajuda, do chefe que nos pede um relatório, da amiga que está a sofrer, da EMEL que nos está a bloquear o carro ou do almoço que nos caiu mal.

 

Quando gostamos de alguém, podemos estar incontactáveis, mas o nosso coração, a nossa alma, está em ligação directa com o outro. Sempre. É uma
coisa que se sente. E quem não sente… não gosta. Pode estar um oceano, uma ponte, uma fila de trânsito, um pilha de roupa para passar a ferro, entre nós. Mas nós sabemos que a outra pessoa está .

 

Quando gostamos de alguém, confiamos. Ah… esta é a parte mais difícil. Eu descobri isso agora. Quando finalmente descobri que confio em alguém. Que confiar em alguém é a maior prova de amor. Que aceitamos o outro. Que o outro nos aceita. E que sabe que se passamos a mão pelo braço de outro, e se nos rimos que nem perdidos com o que outro alguém diz, não é por mal. Não queremos ir para a cama com esse outro ou outra. Apenas gostamos de flirtar. E quando alguém gosta de nós aceita-nos como somos. Ainda que com queda para apreciar o menu da vida. Ser fiel por falta de opções é muito fácil, certo?

 

Quando se gosta de alguém, há muitas mais coisas que importam. Não importa só ele ou ela. Importam muitas mais. Os nossos amigos, a nossa família, as coisas que amamos, as coisas que nos fazem vibrar, as coisas que escrevemos, as coisas em que nos empenhamos, o sorriso dos outros, as lágrimas dos outros. A diferença é que, quando gostamos de alguém, queremos que ele ou ela conheçam todas essas coisas que nos importam, que fazem parte da nossa vida. Quando gostamos de alguém queremos que esse alguém conheça a nossa vida. Que a aceite, mesmo que não a compreenda e nem perceba porque raio perdemos tempo a ir comprar sapatos com uma amiga ou a tagarelar no chat com um amigo que está com dúvidas quanto à roupa que vai vestir no jantar dessa noite com a rapariga que conheceu no comboio.

 

Quando gostamos de alguém somos inteiros. Levamo-nos com todas as paixões da nossa vida, todas as nossas angústias e desejos, e fraquezas, e soberbas, e encarnações, e maus e bens estares, para a cama, para o chão, para a casa de banho, para a cozinha. Levamo-nos todos, cada célula juntinha, sem dispersões, sem partes nossas que ficam à porta porque podem chocar, ou porque nós próprios não as queremos aceitar. Quando gostamos de alguém, à séria, começamos a aceitar-nos, a assumirmos quem somos. Quando gostamos de alguém, descobrimos que, afinal, até podemos gostar mais de nós do que pensávamos.

 

A história da metade da laranja? Esqueçam. No way. O amor não é isso. Não temos de precisar que alguém nos complete. Almas gémeas há muitas. Eu tenho a sorte de, amiúde, encontrar muitas. E sou abençoada por frequentemente poder dizer: “Gosto de ti pá”. Calhou o universo colocar-me no caminho pessoas boas. É um facto. Amo muitas pessoas. São as almas feitas gotinhas descondensadas da minha nuvem celestial que vão caindo nesta vida.

No amor, quando se gosta de alguém, somos uma gota que se junta à outra para cairmos juntas. Em solo às vezes agreste, com a esperança que se torne fértil. Mas até as ervas daninhas têm direito a florescer.

Quando se gosta de alguém, somos dois seres inteiros que se unem, com todos os seus dons e todas as suas merdas, para estarem juntos porque querem, não para pronunciarem, no futuro, a treta romântico-ultrapassada de duas almas que se completam. Quem precisa de alguém que o complete tem sérios problemas e precisa urgentemente de psicoterapia ou corre o risco de a sua vida ser a eterna estória que nunca tem um happy end. Porque o final feliz pode ser todos os minutos, pode ser de hora a hora, com risos e choros bebés pelo meio se assim tiver de ser. E pode ser todos os dias, dias depois, intercalado, ou na altura certa. Porque não existem alturas erradas para nada.

 

Quando se gosta de alguém queremos o bem do outro. Incondicionalmente. Mesmo que isso implique emitir opiniões que não são bonitas como “vai lavar os pés” ou “ficas horrível com essa roupa”. Emitir opiniões é uma coisa boa.

 

Quando se gosta de alguém até o silêncio fala.

 

Os filmes são mais comoventes. Queremos ser mais e melhores. Compramos a revista “Cais” três vezes ao mesmo senhor imigrante. Achamos que somos pouco para tanto. Comemos um gelado e achamos que não engorda. Bebemos vinho, ficamos com os lábios roxos, arriscamos a operação stop da polícia e andamos com o carro sem inspecção feita.

Tivemos medo de nos render, quando já estávamos rendidos. E a mim ainda me dá para escrever posts destes, feitos numa polaroid que queremos que perdure no tempo.

 

Quando se gosta de alguém não há nada a fazer, a não ser gostar.

 

 

 

 

 

 




mfssantos @ 20:28

Sex, 07/10/11

 

Gostei. E gostaria de poder ter escrito algo semelhante. Parabéns.


Rita @ 17:27

Dom, 09/10/11

 

gostei muito (:

Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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