Nuno Miguel Guedes @ 21:56

Qua, 12/10/11

Talvez seja por lidar com as palavras como ofício mas a verdade é que gosto de estar atento ao modo como as pessoas conversam. Não se trata de bisbilhotice , até porque temo que seja cada vez mais raro encontrar seres humanos com algo de relevante para dizer; não, interessa-me neste caso mais a forma do que o conteúdo. Gosto de saber como a língua é usada, as músicas sortidas das frases, os diálogos improváveis, algumas expressões geniais. É um exercício inofensivo, barato, portátil (praticável em qualquer paragem de autocarro, café ou repartição de finanças) e sempre útil para quem escreve.

Infelizmente, a última experiência deixou-me aterrorizado. Descobri, sem margem para erro, que os adolescentes da franja etária 12-16 não têm voz própria: alguém faz a dobragem dos seus diálogos.

 

Parece um mau argumento de um filme de Woody Allen, mas é a minha convicção. Explico: dediquei-me há uns dias a ouvir a forma como a minha filha (14 anos) e as amigas conversavam. O resultado foi traumático. A entoação e as expressões-tipo eram traduções selvagens do modo de falar das teenagers americanas. Um exemplo clássico encontra-se nas formas descritivas:«A stôra de Inglês é, tipo, chata», em que 'tipo' substitui o bordão 'like' («She was, like, you know...»); as interjeições a mesma coisa: «E vocês viram o cabelo do Luís? Oh meu Deus, é sei lá, tipo – horrível?», em que a interrogação significa na verdade uma afirmação. Qualquer infeliz que tenha assistido a um episódio em português da Hannah Montana sabe do que estou a falar.

 

Não me entendam mal, leitores: não sou um empedernido reaccionário linguístico. Não acho que os adolescentes devam falar com tiradas à Pai Tirano («Ó inclemência! Ó martírio!»). Pelo contrário, sei que a língua é viva e objecto de fácil contaminação, o que a torna apaixonante (e por isso não susceptível de a formatarem com «acordos» mas isso são outras lutas). Só tenho pena é que os jovens tenham preguiça de formar a sua própria gíria, os seus próprios bordões e manias de dizer que os afastem do linguajar dos adultos. Isto é uma dobragem transladada do americano, que a não ser contrariada poderá no limite fazer com que qualquer dia um dos versos  mais famosos de Camões seja lido «Amor é um fogo que arde, tipo, sem se ver».

 

Desdobrem-se, por favor.




Rigoletto @ 23:07

Qua, 12/10/11

 

Então é assim, tá a ver?", nós pais, não temos outro remédio senão conformarmo-nos. Um descontentamento tipo descontente.

armandina maia @ 11:53

Sex, 14/10/11

 

Lido com putos dessa idades há muitos anos. A linguagem pode parecer assustadoramente pobre, mas sei, de experiência feita que, eles e elas, também se agarram ao Camões, Florbela e muitos outros.
São fantásticos os putos. Ser pai é neste tempo, um ofício de paciência. Abraço.
Armandina Maia

Tikinha @ 17:14

Sex, 14/10/11

 

tipo, acho que tens toda a razão...os nossos adolescentes saiem das escolas sem saber , tipo, falar e escrever a maravilhosa lingua portuguesa.
Enfim...onde estará a falha? Serão os professores que exigem menos ? Serão os telemoveis que para se escrever mensagens fazem aquelas abreviaturas fantásticas e substituem as letras tipo, o que pelo k? Como se falará a lingua portuguesas daqui a muitos e muitos anos....será que se ressustitassemos iriamos conseguir percebê-los?

Goncalou @ 17:46

Sex, 14/10/11

 

Boas!
O meu filho (11 anos), ao pé de mim já evita de dizer "tipo" pois quando o diz, "tipo" que temos um pequeno/grande desaguisado.
Mas no outro dia enquanto entrava para o carro, "tipo" que uma miúda na conversa com um rapaz (ambos com cerca de 12-13anos) disse a palavra "tipo", sem exagerar, 20 vezes. Enfim ...

castor71 @ 17:51

Sex, 14/10/11

 

Gostei muito do seu post. Identifico-me com ele. (Ou seja, gosto de espiolhar a linguagem que anda por aí. Até em formatos que não metem língua. "Se eu fosse uma mosquinha...") Já tinha reparado nisso do "like/tipo". E é mesmo isso: tradução e dobragem. Ver um filme da Disney tipo (cá está, "tipo") "High School Musical" é uma enxurrada de prversões do que podia ser "muita giro", como por exemplo, reinventar a linguagem. A lingua é viva. Evolui.

Dom Ricardo Corleone @ 18:16

Sex, 14/10/11

 

Tão irritante como alguns estrangeirismos parvos, para imitar séries americanas, que muitos adultos, alguns deles empresários, também têm a mania de usar por tudo e por nada, às vezes com palavras que existem em português há anos. Whatever, muffin, nerd, muitos outros que agora não me recordo, e até o fixe anda a ser substituído pelo cool...Fixe não é grande português, mas prefiro mil vezes ao americanado cool...

RC @ 22:41

Sex, 14/10/11

 

Eu já tinha percebido isso do tipo, há 2 anos. Mais recentemente é outro: blablablá e não sei quê, blablablá e não sei quê. Isto tem a ver com a internet, pois tanto falamos em português como em inglês com outras pessoas e depois estes "tiques" passam na tradução...


Pedro Leitão @ 03:19

Sab, 15/10/11

 

O goncalou não deixa o filho dizer tipo, mas escreve pérolas do tipo (aqui bem usado) "devias de".

É, provavelmente, a coisa que mais me fascina na internet: a sempre muito participativa massa dos que criticam sem saber melhor. É, enfim, o problema da democracia em geral.


Pedro Leitão @ 03:23

Sab, 15/10/11

 

A expressão utilizada no comentário foi "evita de dizer" e não "devias de", mas o ponto mantém-se.

No entanto este lapso levanta outro ponto: este belo blog não me deixa ler o comentário ao qual quero responder enquanto escrevo a devida resposta (e nem me deixa sequer responder directamente a um comentário, apenas comentar o post), o que provocou a troca.

Belo sistema de comentários.

Celia Marques @ 06:24

Sab, 15/10/11

 

Concordo... é verdade e é uma pena... cada vez se fala e se escreve pior em Portugal... o problema é quando até as próprias figuras públicas, ou mesmo os próprios jornalistas o fazem.... é urgente rever-se a forma como se fala, para mais quando se é visível para centenas de pessoas...

Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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