Ana Santiago @ 01:50

Ter, 18/10/11

“Odeio pessoas com menos de 30 anos”. Digo-o muitas vezes. Sempre
a brincar, porque na realidade não as odeio, invejo-as. Não se fala muito disso
porque parece coisa feia, mas a minha geração, nascida nos 70, está com ganas de
imitar a geração nascida nos 80/90. Não sou da Sociologia, nem da Antropologia,
não sei fazer inquéritos, estudos e estatísticas. Quando muito, faço trabalho
de campo. E aí não há trejeito, moda, tendência, vocábulo, olhar, toque, que me
escapem. Pela observação participante, sem que ninguém me tenha mandatado, atrevo-me a falar da minha geração que só agora, a caminho muito chegado aos 40, começa a desembrulhar-se de uma série de equívocos e de um coma (auto)induzido, paralisada
algures entre uma geração de progenitores que a iniciou na tetralogia
“família-casa própria-carrinha-emprego seguro” e as gerações anteriores
(nascidos nos 50 e nos 60) desses malucos que viveram à grande os 80,
conheceram todo o tipo de cogumelos fora da lata e passaram por propedêuticos
vários de perda da inocência. A minha geração, que jogava ao bate-pé, e sabe a
canção do Dartacão de cor (somos muito cromos), tem andado estes anos todos
como se vivesse eternamente um Verão Azul ou no filme O meu primeiro beijo.
Somos a mais inocente das gerações, quando todas as outras encetaram formas de
descomprometer-se com algum cinismo, a que chamam crescimento.

Temos vivido entalados entre: pais geralmente certinhos, que não pediram dinheiro
ao banco para pagar casas e máquinas de lavar, e raramente se divorciaram, e
amigos mais velhos que partiram a loiça toda na juventude e até sabem dizer
onde estavam no 25 de Abril. Nós somos, roubando o rasgo de raciocínio original
a um grande amigo meu, “um estilhaço da revolução” ou, isto digo eu: um
espermatozóide que queriam tivesse saído aos pais mas mais se parece com um
primo afastado, aquele de que toda a gente diz “saiu-se bem na vida”, mas que
nunca aparece, nem sequer em casamentos e funerais.

E que vida tem sido a nossa? Numas manifestaçõezinhas na faculdade regadas com vinho rasca; a licenciar-nos em cursos nos quais foi
difícil ingressar (no tempo em que entrar para a faculdade era muito mais difícil
do que conseguir um crédito à habitação); a casar e a descasar; a ficar casado
porque as dívidas unem os casais; a trair com vergonha primeiro, à descarada
depois; a ter filhos para os quais não temos tempo, mas também aos quais damos
mais atenção do que nunca, nem que isso nos custe a sanidade mental (somos os
melhores pais do mundo, e digo-o sem cinismo, porque a minha geração não sabe o
que isso é); a hipotecar-nos a bem da estabilidade que nos desejaram; a
construir carreiras de sucesso que ora pomos em causa com crises existenciais,
ora defendemos com unhas e dentes agarrados a uma triste concepção de emprego
para a vida, quando os saldos bancários são cada vez mais negativos e as
aspirações cada vez mais altas.

Andamos assim. Ainda num limbo. Com a clara noção que deu
tudo errado, mas a achar que ainda pode dar certo. Ou não fôssemos os inocentes
desta vida que não desistem do amor, da família, da carreira, da noite, dos
amigos, da juventude que perdemos a ensaiar convicções que herdámos, vivemos,
mas já não projectamos. Não nos apetece. Queremos começar a fazer à nossa maneira.
Agora que a democracia já não é um sucesso e os bancos e todos aqueles a quem
vendemos a alma vêm cobrar-nos, estamos a acordar do coma, nem que seja porque
levamos um valente estalo quase todos os dias. Nem que seja porque pomos os
olhos na geração que veio depois, que não arranjou empregos como nós, mas lança-se
na vida com a garra que não tivemos de ter; que está, na sua maioria,
literalmente nas tintas para a política, é verdade, mas pelo menos não cria
ilusões; que tem anos e anos de dificuldades pela frente, jamais sonhando com
reformas ou subsídios de Natal e de férias, mas não tem de olhar trás. Porque
eles, que eu digo odiar, só vêem para a frente. E têm tanto tempo mais que nós para isso.

E assim, nós, que sabemos mais do que eles todos, queremos voltar atrás. Como se pudéssemos enganar o tempo, esculpi-lo com a nossa
experiência e o poder das ideias que parecem-nos finalmente simples, como se tivéssemos estado todos estes anos sentados em cima do ovo de colombo. Queremos voltar atrás com o trunfo de já sabermos tanto para a frente. Num arrepio de caminho
retroactivo, começamos a dividir casas uns com os outros, a aprender novas
noções de família, a deixar de fazer compras no supermercado para o mês e a viver
o dia-a-dia com menos ganância, porque perdemos o medo de perder. Já não
queremos hipotecar o futuro, e a única coisa que nos interessa amortizar é o
envelhecimento. Nunca a juventude foi tão protelada, como connosco. Somos mais
jovens que os “jovens agricultores” que apareciam no programa TV Rural, com barba branca e netos escondidos atrás do tractor. Agora deu-nos para o charme e para ter filhos na barreira dos 40. Os vintinhos e os adolescentes hão-de agradecer-nos isso. Temo até que se cansem de tanta juventude e estraguem tudo, porque não perderam tanto tempo como nós a ser velhos.



Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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