José Maria Barcia @ 01:05

Qua, 02/11/11

Era um vez uma sala em branco. E de repente, sem aviso prévio, uma música. E as janelas abriram-se ao toque do som. Uma de cada vez, e depois a porta. Esta bateu contra a parede deixando um buraco. A porta partiu-se.

 

Tinha entrado alguém. Tinhas ficado lá. E a música não parava mas não existia. Tu sentias a música, eras a música. As portas e as janelas abriram-se porque tu quiseste. A pessoa entrou porque tu quiseste.

 

Entretanto, o volume aumentou. Contagiado pela música, tu fugiste. Não por cobardia mas porque chegou a hora. A música obrigou-te. Largaste tudo e correste. Não sabias para onde ir mas tinhas a certeza do teu destino. E correste. E correste. A música não te largava.

 

Chegaste ao teu sítio. Já lá tinhas estado mas nunca te tinha dito nada. Mas hoje era diferente. Hoje as coisas faziam sentido. Enquanto recuperavas o fôlego, a tua cabeça parecia explodir. A música aumentava à medida que o teu coração bombeava sangue para o resto do corpo. Estavas em êxtase. Hoje as coisas faziam sentido. Sabias para onde tinhas de correr. O local onde estavas era o teu destino.

 

Até este dia, a tua vida era normal. Meio perdido meio cansado, ias fazendo o teu dia-a-dia com toda a normalidade exigida. Mas a música, a tua música, tu. Hoje era diferente. Fugiste, não por cobardia mas por necessidade e correste até mais não. Dizem que foste até ao outro lado do mundo.

Aquele sítio que não te dizia nada até lá chegares nesse dia.

 

E depois fizeste aquilo que para lá foste fazer.

Não deixaste que ninguém te dissesse não. Ninguém te deitou abaixo e coitados dos que tentaram. Foste herói, foste salvador. Foste um exemplo e deixaste amor e ódio. Não foste indiferente e isso é o nosso sonho.

 

Quem te julgaria capaz de mundos e fundos quando antes estavas numa sala, perdido e cansado?

Pelos vistos, tu. Pois ouviste a música que te mandou ir. Porque aquele que entrou na sala eras tu a dizer para ires. E foste, se foste.

 

Enfrentaste-os com coragem e classe, como poucos o conseguem fazer. Mostraste-me que basta ser a música que se quer ouvir e ensinaste-me a escolher a melhor música.

E no fim, voltaste. Ainda tinhas mais uma coisa a fazer de volta à sala branca.

 

Voltaste ao cansaço crónico de saberes o que fizeste mas já não o fazias. Sentiste-te perdido porque a sala branca era pequena demais. Já não podias correr porque a música era diferente e e não tinhas para onde ir.

 

Tinhas só mais um objectivo e cumpriste-o. Pagaste por ele. E pagaste-o bem.

Apesar de teres deixado muito na sala branca onde estou agora, ainda haveria mais para deixares. E hoje, que sais da minha sala branca, sais porque fui eu a abrir a janela. Hoje, quero-te deixar ir. Até uma próxima quando nos encontrarmos numa correria.

 

Adeus, Mãe.

 

 

Texto dedicado à minha Mãe, no dia de todos os santos. Ela há de ser um deles.



cristina garin @ 12:25

Seg, 14/11/11

 

Zé Maria
Que texto mais bonito. Muitos parabéns pela forma como escreves e pelos sentimentos que consegues demonstrar tão publicamente. Nem sempre é fácil.
Sei que a tua Mãe se sentiria mto orgulhosa de ti.

Um grande beijo para ti desta tia que tb tem mtas e mtas saudades da tua Mãe.

Tia Kiki

Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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