teresanicolau @ 22:33

Dom, 06/11/11

Gosto tanto de Domingos. Sempre gostei de acordar antes da hora da preguiça, porque o almoço merece mais cuidados, quando é de receber a família, preparar a couve lá da terra e as carnes fumadas cheias de um sabor que só se pode experimentar uma vez por semestre. O fresco que já chega pelo Novembro soalheiro, dá vontade de calçar uns ténis e ir a correr comprar a última salsa esquecida, em passo apressado como se o leite creme estivesse ansiosamente à espera do ferro quente. Gosto ainda mais de estar sentada à mesa, na conversa que não diz nada entre as garfadas cheias de feijão e os copos logo vazios. O Domingo é dia preferido, porque a mente descansou, porque o tempo se esticou, porque os sinos tocaram e a cidade parou.

Neste Domingo, o café pediu o passeio pelo bairro daqueles que se faziam em infâncias descansadas para comer o gelado da semana e para vestir a roupinha especial. Hoje, mesmo que sem direito a sapatos novos a marcarem os pés, foi o coração que ficou assim um bocadinho dorido. Domingo é dia em que muitos dos pacientes residentes no Centro do antigo Júlio de Matos saiem à rua, para passear. Andam pelo bairro, muitas vezes aos pares, entre amigos, a cumprimentar as pessoas que nem se dignam a ouvir o "Boa Tarde". E sim claro, logo a seguir é hábito haver pedido: uma moedinha... ? E sim claro, ninguém tem essa moedinha, que o multibanco só dá a partir de notas de 10 euros e já não há trocos para nada. Dois desses senhores, de sorriso aberto, aproximaram-se então da nossa mesa, para o tal cumprimento feliz e sim: "Um cafézinho para mim e outro para o meu amigo? Pode ser?" Lá então ganharam direito a sentarem-se na esplanada de uma das pastelarias mais badaladas de Lisboa, perante a estupefacção do funcionário que gritava: "E então, quem paga os cafés?" Tive de levantar o braço, como na escola primária. No final dos seus cafés, os dois senhores, do alto da sua alegria, fizeram questão de dar um valente aperto de mão a todos nós. Um deles, quase em segredo, aproximou-se mais de mim e disse muito baixinho: "Deus a abençoe".

Bastou isso. Para exercitar o coração.



Ângela M. @ 09:41

Seg, 07/11/11

 

Muito bom Teresa...Texto muito bem escrito e que só poderia ser fruto de um coração exercitado :)

Paulo Sardinha @ 19:04

Qua, 09/11/11

 

e hoje faz nos tanta falta exercitar o coração...

Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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