João Gomes de Almeida @ 00:31

Qua, 30/11/11

O amor que sentimos por quem amamos pode e deve ter uma definição política, que não tem que ser necessariamente a nossa orientação política. Durante os últimos dias tenho reflectido bastante sobre o assunto. Alguns de nós somos uma espécie de anarco-sindicalistas, principalmente quando refilámos dos sogros que temos, outros são fascistas, quando deixam que o ciúme se transforme em possessão. Há inclusive seres que são um tipo de democratas-cristãos de índole sexual, atrevendo-se pouco a experimentar coisas novas e tendo algum pudor em falar com a sua paixão sobre o assunto.

 

Eu a ter uma ideologia no amor - e sabendo que todos temos uma - acho que sou marxista-leninista-trotskysta-morenista. Ora vejamos, abstenho-me de perder muito tempo a explicar a dialéctica marxista, mas aqui vai: defendo a igualdade, ou seja, o comunismo do amor - acredito piamente na ditadura do proletariado aplicada aos sentimentos, em que todos lutamos contra o pior dos males: o amor capitalista e materialista, que neste momento, ameaça de extinção os longos e doces beijos à chuva e as cartas pirosas com frases roubadas ao Esteves Cardoso através do Google.

 

Esta coisa, chamada Google, aliás, transformou-se - não tenho medo do dizer - no Pravda do amor moderno, ou se preferimos, no livrinho vermelho do Mao que transportamos no bolso, mas agora em formato de telemóvel, para sacarmos sempre uma grande frase para conquistarmos quem amamos.

 

O leninismo amoroso já é outro passo. É a acção da paixão, a conquista do czar, a mobilização das tropas para que todos os Outubros sejam vermelhos como a rubra paixão. São todas as nossas forças materializadas nos camponeses e operários que se lançaram para a frente na conquista de S. Petersburgo. O amor é uma revolução leninista, não se trata de uma transição pacífica ou de um referendo popular, mas sim de um acto de rebeldia que só pode ser imposto pela violência dos sentimentos.

 

Agora que todos já estão pensar que sou um cunhalista do amor português é que chega o trotskysmo. O apelo da revolução permanente e internacionalista, que deve ser feita sempre e em qualquer lado. É a continuação do leninismo, a coragem de lutar sempre e todos os dias, para que o amor dê certo, para que a revolução nunca tenha um fim. Amar é fazê-lo todos os dias e se nos lembrássemos mais de Trotsky certamente que não existiram tantas zangas no amor.

 

O meu amor é mesquinho, por isso sou morenista. O morenismo é uma corrente trotskysta criada por Nahuel Moreno, líder revolucionário argentino e autor do livro "O partido e a revolução", que rompeu com a corrente dominante da IV Internacional trotskysta, liderada na época pelo belga Ernest Mandel. O motivo? Aí está o cerne da questão: o sandinismo na revolução da Nicarágua. Mas que raio, como é que um argentino e um belga se zangam por causa da Nicarágua? A verdade é que Nahuel Moreno, que já tinha pertencido à III Internacional, abandonou Mandel e fundou a LIT - IV Internacional. Também no amor sou assim, mesquinho o quanto baste para ligar a todos os pormenores e para me chatear e preocupar com tudo e mais alguma coisa.

 

No fundo, o meu amor talvez seja tão utópico como as ideias de Marx, Lenine, Trotsky e Moreno. Mas de qualquer forma, o meu amor é de quem acredita, de quem o vive como se fosse o maior dos objectivos políticos, a maior das causas e a maior das guerras. Amar é sermos isto mesmo, sonhadores, indecisos, irreverentes, revolucionários e utópicos, isso mesmo, utópicos.

 

Amo como quem se levanta todos os dias acreditando que vai mudar o mundo, ao teu lado, fazendo a nossa própria revolução.




Ana Santiago @ 01:46

Sab, 26/11/11

"O Homem não é um ser monogâmico". A primeira vez que fui assombrada por esta ideia antropológica, perdida que estou já no número de vezes que a ouvi da boca dos cientistas sociais, tinha 9 anos e foi quando li, às escondidas, o romance de Jorge Amado sobre a Dona Flor e os seus dois maridos. É certo que um deles estava morto, mas aos 9 anos isso era um pormenor.

Costumo usá-la, sobretudo, para arreliar a minha amiga G., a pessoa que até hoje mais me ensinou sobre fidelidade, ou sempre que pretendo sabotar-me e achar que tenho muito amor para dar. Não dá resultado. O cardiologista disse que o meu coração está com uma aorta qualquer a dar de si, o que significa que não é tão elástico como eu pensava e está, sinto-o, farto que eu o engane. Os cientistas sociais podem atirar-se ao chão a rir, mas eu não quero ir parar ao bloco operatório de coração aberto e ficar com uma cicatriz que me estrague o decote.

O nosso desejo visceral de poligamia, ainda que não passe na maioria das vezes de uma conspiração silenciosa (e às vezes sem efeitos colaterais) das hormonas e do medo da solidão, é uma coisa que inscrevemos na mente com os traços mais licenciosos da nossa personalidade para enganar a alma. E a alma, tal como o coração, também está farta disso. Faz-se de parva, deixa-nos dizer e fazer disparates, mas reclama muitas vezes. Verdade. É só uma questão de prestar atenção ao nosso corpo. Quando ele já não bate certo com o coração, os músculos doem, a sinusite ataca, os pulmões andam em sobressalto, ganhamos conjuntivites e a barriga incha. À falta do nosso juízo, a alma dá-nos lições de anatomia emocional.

A poligamia, seja ela praticada, suada ou imaginada, é um vírus mutante. Difícil de controlar. Começa no flirt e pode acabar na terapia, clínica ou etílica (dependendo do nível de consciência do incubador). A monogamia não é a cura. Não é um comprimido ou vacina que se tome, e já está. Era bom. Não era. A monogamia precisa que o doente tenha desejo da cura. É uma coisa em que se investe muito tempo, uma relação prolongada com o sofá roubado à psicanálise. Freud não explica. Jung pode ajudar, mas só nós nos podemos curar. E quando depende tudo de nós, é uma solidão tramada e lá voltamos à polimania. Círculo vicioso.

Quando aterro no sofá, imagino a monogamia como o sítio onde desejamos repousar, acostar a ver passar todos os seres que também podiam ser “nossos”, mas que deixamos seguir porque não perseguem o mesmo destino. A monogamia é isso. É um destino a que só chegamos nós. Tu e eu. Ele e ela(e). Ele(a) e ela.

A monogamia começa sempre por um flirt, por um sorriso, mas depois, como diz o João Gomes de Almeida na sua ode à irracionalidade: “Amor que é amor começa num sorriso e acaba em ti”. Tu. O destino final só tem um tu. Depois de muitos sorrisos para vós, o amor só tem futuro se conjugado contigo. Only you, que é como se diz monogamia em americano.

 

(Havemos de lá chegar)




João Gomes de Almeida @ 10:29

Sex, 25/11/11

O Henrique Raposo convidou-me para escrever hoje no seu blog no Expresso On-line. Aqui está o meu humilde contributo.




Nuno Miguel Guedes @ 10:59

Qua, 23/11/11

                                                                                                                                 What holds your hope together/make sure it's strong enough

                                                                                                                                 Winning, The Sound

 

Não gosto de falar de esperança. Da esperança nasce o medo, já diziam os Antigos (notavelmente o estóico Séneca nas suas cartas a Lucílio). Mas nestes dias cinzentos por dentro e por fora de que poderemos falar?

A minha esperança é como esta da canção de Adrian Borland, dos velhos The Sound: uma esperança precária, cosida por frágeis fios invisiveis que não sei se são suficientemente fortes. É uma esperança ambígua, como o é esta aparentemente triunfante canção. Fala de recomeço e de persistência, de levantarmo-nos sempre que caímos, de nadar quando nos estamos a afogar. Mas primeiro tivemos que cair, primeiro quase fomos ao fundo.

 

Não posso porém dizer que sou um pessimista. Isso parece-me demasiado dramático, uma encenação teatral destinada a chamar as atenções. Além disso o pessimista não age – compraz-se nas certezas que possui e não há nada mais perigoso e maçador, não necessariamente por esta ordem. Não, prefiro céptico, uma atitude de dúvida sistemática que pode ser irritante para os optimistas – a variante em pólo positivo dos pessimistas – mas que pelo menos leva ao questionamento permanente e a uma distância higiénica das certezas terrenas. Para quem não possui a natureza humana em grande consideração é a atitude a ter.

Mas há surpresas. A adversidade costuma trazer uma suspensão na descrença na Humanidade e mais uma vez aconteceu isso mesmo: o apelo desesperado de um pai mediático levou à criação de um improvável exército de dadores de medula óssea; a noção de voluntariado ganha força e número real de efectivos; por todo o lado contam-se histórias de até agora anónimos portugueses que por força das câmaras e das palavras passam justamente a «extraordinários».

 

Haverá razão para ter esperança, então? Talvez. Parece pelo menos haver a consciência de um «humanismo do Outro», em que o Outro se torna a prioridade e não a fronteira. O abandono total a esse conceito é o cerne da doutrina cristã. Quanto tempo irá durar o estado actual de bondade é dificil de dizer. Provavelmente até à proxima época de prosperidade

Não gosto de falar de esperança. Prefiro a palavra perseverança, misto de esperança e persistência. Abracemo-la mas antes estejamos certos que aquilo que a une é suficientemente forte.

 

 




teresanicolau @ 21:56

Dom, 20/11/11

Tinha dois anos quando me lembrei de ter memória. Olhei pela porta do quintal, no meio das roseiras que ainda tinham o cheiro da água regada e pensei: vou lembrar-me deste segundo para o resto da vida. O verniz amarelo e estalado da porta tirava-se com a paciência das minhas unhas pequenas e a mania de esburacar. A senhora Júlia lavava a roupa no tanque quando a minha mãe me chamou: Mafalda, não esteja aí descalça na água suja! Água de sabão que se espalhava pelo alpendre todas as vezes que a senhora Júlia batia a roupa com o vigor próprio daqueles braços gordos. A senhora que também me obrigava a comer a sopa aos sábados de manhã, quando a minha mãe ia ao mercado comprar as mercearias para semana. E os braços que me davam abraços de cheiro intenso e beijos molhados. Ela sempre que tinha oportunidade, comia-me os biscoitos. Eu nem me importava porque havia sempre na lata do armário azul, junto à marquise da cozinha, uns que a minha avó fazia e deixava todas as segundas feiras antes de eu chegar da escola. A minha avó Adelaide já quase nem via mas ainda sabia que lume seria suficientemente brando para não secar os biscoitos de canela. Morreu num domingo, ao vir da missa, enquanto caminhava. Ninguém viu como e nem durante quanto tempo esteve sozinha no meio da rua. Parece que foi o senhor da loja das rações que passou de bicicleta e viu o vulto negro estendido. Como naquele tempo, nem todos tinham telefone, foi necessário chamar novamente o senhor padre, que costumava almoçar na casa da Dona Regina aos Domingos, para abrir a sacristia e ligar ao Doutor Nunes da barba que picava como as ortigas, que existiam por detrás do muro do meu quintal. Foi atropelada. E nunca mais me esqueci.. Desse mesmo segundo. (...) a continuar




José Maria Barcia @ 05:13

Sab, 19/11/11

Há amizade e amor. O problema existe quando a partir da amizade, um dos intervenientes passa a amar o outro. Distingua-se, antes de mais, os dois sentimentos. Por amizade, entenda-se uma complicidade amistosa, uma relação capaz de aguentar as frustações do outro, aconselhá-lo e confiar, rir das parvoíces e toda essa treta lamechas mas que toda a gente gosta. Por amor, algo mais e algo menos. Mais complicidade, mais intimidade física: beijos, sexo, paixão; menos paciência para as divergências, quase tudo é uma batalha numa guerra onde é obrigatório ganharem os dois.

 

Pergunto-vos, meus caros leitores, quem nunca passou por isto? Gostar de um amigo ou amiga. Acordar um dia, depois de ter sonhado com essa pessoa, e ao abrir os olhos, pensar ''Porra, e agora?''. Vestir qualquer coisa especial sabendo que essa pessoa vai estar no sítio onde vamos estar, olhar de modo diferente para essa pessoa, reagir de maneira diferente às coisas que outrora irritavam e agora perfeitamente suportáveis.

 

Digo-vos: é uma merda. Fica a questão entre manter a amizade ou fazer all-in, arriscando a amizade mas com a possibilidade de muito mais. Hoje tive a oportunidade de perguntar a uma especialista na matéria o que fazer. Perguntei à barmaid do sítio onde fui, o que fazer. Ela disse para falar com ela. Bairmaids... Já não são o que eram.

 

E agora, o que fazer quando alguém se encontra nesta encruzilhada? Arriscar ou jogar pelo seguro? Tema cliché, no entanto, nunca há uma resposta certa.

 

Como uma grande senhora me disse uns anos atrás: life's a bitch. And then you die.



Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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