Nuno Miguel Guedes @ 21:38

Qua, 09/11/11

Acordar.

Levantar a custo, o ritmo do corpo imediatamente acinzentado, lento e pegajoso como o dia que se entrevê da janela. O peso irreversível da insónia que nos tolheu a noite, os gestos  gelatinosos que se agarram às mãos e ao rosto, cortesia do comprimido para dormir que não resultou. E devagar entrar na rotina que nestas alturas surge como um refúgio da nossa vida, mesmo os minutos mais previsiveis e medíocres que nos dão a sensação de que por uma fracção de tempo o mundo não está contra nós: o dono do café que se adianta em silêncio ao nosso pedido habitual, as caras que sabemos irão morrer ali um dia, as piadas gastas e as notícias inúteis que nos garantem que nada mudou e que perversamente tudo irá ter solução.

 

O carro, o trânsito, os insultos em surdina, o pensamento a voar e a ser preso constantemente pelo quotidiano feio, as piores ideias que atravessam a nossa cabeça, desistir, descansar. As citações das palavras mais amargas que nos surgem durante o dia, durante o regresso, «home is so sad» dizia o poeta e com razão. E a internet que falta, e a luz que foi cortada, e os amigos a quem falhámos, e a nossa vida a recuar, e as saudades de quem já não nos pode ajudar, e o mofo dos amores velhos pegado à roupa, e o pavor de já ter perdido a capacidade de amar pegado ao corpo, e o desejo urgente da escuridão, da ausência de luz, que o despertar demore porque tudo amanhã será igual.

 

E no último minuto, no último segundo antes do cerrar dos olhos, antes dessa mortalha provisória que é o sono ter a força e a coragem para dizer: meu Deus, obrigado por este dia. 




Observing Ego @ 19:49

Dom, 13/11/11

 

excelente texto, deliciosamente escrito !

Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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