teresanicolau @ 21:30

Dom, 13/11/11

Uma ida ao supermercado e a bancada do peixe. Como luzinhas de Natal, lá estavam, os camarões dinossauricos, de olhos preto-vampiro e bigodes burgueses, a chamar os hábitos dos artistas no sul de França. Dito assim, só aqueles camarões pareciam ter o poder necessário para me retirarem da amargura dos dias de chuva, do corte dos subsídios, da reserva que gritava aos meus olhos, no mostrador do automóvel. Sem ter muito mais do que esse desejo, Os camarões-tigre lembravam-me as tardes quentes da Costa do Sol.

Maputo e uma marrabenta a estourar entre cada palmeira. Isso sim, dias felizes de sorrisos ingénuos do senhor Zau Zau, o taxista que sempre à mesma hora, estava à porta do hotel, juntinho à igreja que tinha os sinos misturados com as orações da mesquita mais à frente. O senhor Zau Zau, meu amigo até hoje, mesmo que nunca mais o tenha visto, gostava de me levar sacos de linchias maduras para completar o pequeno almoço, mesmo que o sumo de manga, já me tivesse satisfeito. Houve dia então, que lhe criei a maior surpresa da vida, nesse mesmo dia em que o meu chefe pediu em cima de uma hora qualquer, um direto de um lugar diferente, um retrato certo das ruas de Maputo, com direito a entrada em antena dali a meia hora. E sim, foi o herói Zau Zau que me salvou, em pressa estonteada, tanto tanto que ia caindo do seu volante enfeitado de táxi arranjadinho. "Senhor Zau Zau, vamos a sua casa fazer um direto para a rádio,pode ser? Conhecer a sua mulher, que é cabeleireira, depois de alguns anos em Portugal, onde conseguiu juntar dinheirinho pequeno para montar o seu salão de beleza, e a sua filha que chegou há pouco da África do Sul, onde trabalhava a varrer as ruas e a despejar os caixotes do lixo, mas onde nem se deu muito bem, com as saudades da galinha com molho de coco da mãe. E sim à sua casa, lá no caniço, que é o mesmo que bairro de lata como se diz na Europa, e que tem um buraco de mais de seis metros de profundidade a separá-lo das vivendas luxuosas dos guerreiros da luta armada e da independência, que se esqueceram de fazer a rede de esgotos e o sistema diário de recolha do lixo. Vamos lá, senhor Zau Zau?" E assim, de pedido feito em desespero cuidado, lá fui eu, uma menina de tão longe (como dizia o senhor Zau Zau) à casa da família que melhor me recebeu na África inteira. Antes mesmo de chegar, lá ligou à mulher, a pedir não sei o quê e uma toalha e mais uns amendoins e assim. À hora certa, lá estava eu a fazer o retrato do anexo construído entre zinco e madeira pregada, que a senhora Adelaide tinha enfeitado com umas fitas e uns balões coloridos, uma porta aberta cheia de gente só para ver quem se atrevia a ir ali, áquele lugar, que as autoridades locais se tinham esquecido de pôr no mapa. Lá, nesse direto, se disse, daquele mundo separado pela falta de zelo, da coragem diária de cada um, que todos os dias, ou vai vender sapatos usados para o mercado, ou faz caixinhas de madeira com pintinhas brancas, a imitar marfim, da mãe de 16 anos com três filhos e da menina que um dia queria ser médica para abrir um hospital para os amigos. E depois, no final desse momento de rádio que atravessou Índicos e Atlânticos, as lágrimas do senhor Zau Zau, meu amigo até hoje, saíram para dizer: "Obrigada por ter vindo à minha casa."

 

Depois lá acordei.

Entre a fantasia de ter sonhado com a compra do camarão tigre e a memória verdadeira que me trouxe o sonho de uma das épocas mais felizes da minha vida. E porque as memórias são suspiros tão felizes, acabei por fazer ervilhas com ovos escalfados para o jantar. Apenas porque outra memória boa se adivinhava ao cheio dos coentros frescos. Mas essa, fica para outro dia.



Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
Pub.
Segue no Twitter
Arquivos
Pesquisar
 
RSS