Nuno Miguel Guedes @ 12:47

Qua, 16/11/11

Da cartografia dos afectos de cada um existe tanto que contar. Todos temos os nossos lugares de prazer ou de dor, especiais e únicos, que deixamos ou regressamos como a vida nos sugerir. São cidadelas secretas ou partilhadas mas sempre só nossas pelo muito que significam. Podem ter a forma de canções, paisagens, vozes, olhares, palavras, sítios.

Hoje uma dessas escalas pessoais celebra trinta anos de existência. Para o resto do mundo, nada de metafísico ou poético: trata-se apenas de um restaurante em Lisboa. Para mim é um lugar que contém muito da minha vida. Permitam que fale dele, não porque necessite de publicidade (trinta anos são publicidade que baste) mas pela dádiva que me oferece.

Frequento-o há 21 anos, contas feitas de cor e à pressa. Mas esse tempo tem tanto de mim e dos outros que comigo lá passaram que se confunde com os meus dias. Lá me apaixonei muito e muitas vezes, fiz amizades, trabalhei, lembrei amigos desaparecidos, celebrei aniversários. Lá pedi em casamento, fui pedido em casamento, lamentei o casamento, ajudei a casamentos. Para lá levo imediatamente todos os que quero trazer para a minha vida, porque lá ir equivale a ter acesso a uma porta para o meu mundo mais intimo.

 

A mera antecipação de saber que irei àquela rua estreita perto do Príncipe Real enche-me de alegria porque significa um reencontro com o melhor de mim mesmo, que está na capacidade de ser leal às amizades e de ver isso retribuído sem esforço ou cerimónia. Não é por acaso que o proprietário é um dos meus mais antigos e estimados amigos: quando lá vou sei naturalmente o prato que sempre irei escolher: um carinho altruísta e divertido que não vem na ementa. E como se isso não bastasse, ainda se come muito bem...

 

É lá que ainda me recolho quando quero fugir à tristeza. Chego muitas vezes fora de horas, como a própria infelicidade, sem me anunciar ou estar preparado. Mas sei que irei ser recebido sempre da mesma maneira, como se fosse sempre a primeira e a última vez, como se o ontem e o amanhã não existissem mas apenas aquele momento especial e único em que se comunga com entusiasmo o que nos vai na alma. É também o meu destino para ouvir histórias mirabolantes ou conspirar suavemente com os amigos em delírios ébrios de poesia e de virtudes maliciosas. Ali a Académica foi campeã europeia várias vezes e a monarquia alegremente restaurada.

 

No denso mapa do coração nascem ao longo da vida muitos lugares, outros restaurantes. Mas nenhum como o Comida de Santo irá saciar de forma tão perfeita a fome que tenho de amizade. E isso, apesar de não ser incluído na conta, é uma dívida que nunca poderei pagar.



Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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