Nuno Miguel Guedes @ 10:59

Qua, 23/11/11

                                                                                                                                 What holds your hope together/make sure it's strong enough

                                                                                                                                 Winning, The Sound

 

Não gosto de falar de esperança. Da esperança nasce o medo, já diziam os Antigos (notavelmente o estóico Séneca nas suas cartas a Lucílio). Mas nestes dias cinzentos por dentro e por fora de que poderemos falar?

A minha esperança é como esta da canção de Adrian Borland, dos velhos The Sound: uma esperança precária, cosida por frágeis fios invisiveis que não sei se são suficientemente fortes. É uma esperança ambígua, como o é esta aparentemente triunfante canção. Fala de recomeço e de persistência, de levantarmo-nos sempre que caímos, de nadar quando nos estamos a afogar. Mas primeiro tivemos que cair, primeiro quase fomos ao fundo.

 

Não posso porém dizer que sou um pessimista. Isso parece-me demasiado dramático, uma encenação teatral destinada a chamar as atenções. Além disso o pessimista não age – compraz-se nas certezas que possui e não há nada mais perigoso e maçador, não necessariamente por esta ordem. Não, prefiro céptico, uma atitude de dúvida sistemática que pode ser irritante para os optimistas – a variante em pólo positivo dos pessimistas – mas que pelo menos leva ao questionamento permanente e a uma distância higiénica das certezas terrenas. Para quem não possui a natureza humana em grande consideração é a atitude a ter.

Mas há surpresas. A adversidade costuma trazer uma suspensão na descrença na Humanidade e mais uma vez aconteceu isso mesmo: o apelo desesperado de um pai mediático levou à criação de um improvável exército de dadores de medula óssea; a noção de voluntariado ganha força e número real de efectivos; por todo o lado contam-se histórias de até agora anónimos portugueses que por força das câmaras e das palavras passam justamente a «extraordinários».

 

Haverá razão para ter esperança, então? Talvez. Parece pelo menos haver a consciência de um «humanismo do Outro», em que o Outro se torna a prioridade e não a fronteira. O abandono total a esse conceito é o cerne da doutrina cristã. Quanto tempo irá durar o estado actual de bondade é dificil de dizer. Provavelmente até à proxima época de prosperidade

Não gosto de falar de esperança. Prefiro a palavra perseverança, misto de esperança e persistência. Abracemo-la mas antes estejamos certos que aquilo que a une é suficientemente forte.

 

 



Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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