Ana Santiago @ 03:37

Seg, 19/12/11

“Ó pá Ana, não faças isso!”. O N. sentiu-se incomodado com o meu ajeitar do decote enquanto subíamos a rua a tagarelar sobre a vida, o amor e as dívidas. “Hã? Mas para mim és como um irmão!”. Errado. O N. é meu amigo. “Não sou gaja!”, esclareceu. Andava tão feliz por finalmente ter uma mão cheia de amigos do sexo masculino que não dei pela diferença. Sempre fui rapariga de amizade no feminino. Daquela que dura desde o infantário, ou desde ontem, até hoje. Raramente ficou uma para trás; vou acumulando amigas de várias sedes de conhecimento, que depois faço questão de reunir, imaginando que acabaremos um dia todas juntas no lar. Sou da amizade feminina selvagem e tribal, daquela que dá conta de todas as coceiras emocionais e hormonais que nos sobem dos pés à cabeça, das dores de sangue mensais, das dúvidas entre nuances e banho de cor, entre sair de saia justa ou de calças largas, entre a maternidade e a modernidade. Mas ando tão feliz com os meus amigos homens que às vezes até penso que podemos ir à casa de banho juntos.

Durante anos o amigo homem estava encerrado numa espécie de ‘diálogo entre os dois sexos com cordialidade e intimidade q.b.’ Afecto também, que sempre fui dada a abraços, mas com muita reserva mental, porque conscientemente considerava que ele nunca iria compreender-me e acolher as minhas angústias e alegrias com a mesma empatia e pachorra sincera das minhas amigas. Desde há poucos anos, contudo, creio que foi quando comecei também a gostar de vinho (?!), não sei o que me deu, tornei-me bi. Bi-amiga, bi-amorosa, bi-fraternal, não sei que nome dê a isto. Percebi que sou amiga da pessoa e não interessa o género. Faz o meu género quem me sente, quem sofre e ri comigo.

O amigo homem de que falo não é colorido, benefícios só talvez o meu esparguete com mexilhão picante. Não é namorado disfarçado de amigo, dá muito menos trabalho que isso. Também já deu para perceber que os meus amigos não são irmãozinhos inocentes que não olham para o decote. Não são eunucos ou distraídos. Aliás, são quase todos ‘womanizers’. E cheios de dúvidas e receios. A vida não está fácil para os homens. Há dias um outro N. dizia-me: “Tu ainda não percebeste que estás numa posição privilegiada?”. Eu acreditei. Só um homem, amigo, para nos dizer isso com legitimidade.

Deus fez o mundo em seis dias e não é verdade que descansou ao sétimo; tirou o dia para criar o amigo homem à sua imagem e semelhança. Deus, e acho que ainda não Lhe agradeci convenientemente, fala comigo através dos meus amigos e pensa comigo através das minhas amigas.

Eles dizem-me a que horas anda a minha biologia e o meu coração. Elas têm a mesma configuração hormonal e os mesmos problemas coronários. Eles aconselham-me a tomar medidas contra a minha natureza de nariz no ar, afastam-me dos perigos, apontam-me a felicidade e colocam-me no topo de mim. Elas fazem isso tudo comigo, mas juntas, de forma siamesa; compreendem-me, quase sempre, bem demais, somos iguais. Não fomos separadas à nascença, enquanto os homens são tão diferentes que existem, connosco, à distância. A mesma distância que não nos permite ir ao wc juntos, mas nos aproxima da realidade a 3D.

 

Ontem, depois de uma noite no masculino, com uma feminina lá no meio (eu), percebi que o melhor amigo não é o que nos compreende, mas o que ajuda a compreendermo-nos a nós próprios. E o amigo homem, tirado de uma (outra) costela de Adão, faz isso muito bem. E não precisa de ser um anjinho.

 



JP @ 04:20

Seg, 19/12/11

 

Não tenho a mesma fé que tu em deuses que tiram costelas a gente para os transformar em mais gente, mas partilho a cento e oitenta e três por cento a fé em amigos e amigas, chamemos-lhe Amigos. no fundo a vida é como um prato de esparguete com mexilhão picante e os Amigos são o sal que está lá para as devidas ocasiões :)

Demolition Man @ 09:51

Seg, 19/12/11

 

Muito fixe... Esparguete com mexilhao picante??!! Ui, ui...
Quanto ao decote... e um \"problema antigo\"... Bjs...


Raquel @ 15:31

Seg, 19/12/11

 

adorei esta crónica. belíssima.

paula ribeiro @ 22:09

Qua, 21/12/11

 

Tendo terminado há minutos um jantarinho a sós com um spaghetti de camarão um tudo-nada picante, dei de caras com este texto. Gostei e senti-me próxima de alguém que não conheço. Confesso que tenho mais amigos que amigas. E só recentemente, há uns 5 anos é que descobri como ser amiga de homens sem interferências fora desse contexto. A idade ajuda a pôr de parte certos preconceitos e tretas que todos nós, não só as mulheres como os homens têm incutido nas cabecinhas, talvez pela forma como fomos educados. O que é certo é que hoje em dia tenho bons amigos que me dão um enorme conforto e que me aquecem a alma. Esses amigos são os que eu levaria comigo para a casa de banho sem qualquer tipo de problemas. Esses amigos podem reparar no decote que levo e tecer algum comentário. Qualquer mulher que se preze gosta de sentir que alguém reparou no seu decote ou não o usaria e se for dum amigo, a probabilidade do comentário ser sincero é ainda maior (gostando ou não do decote). Sem amigos não chegamos a conhecer-nos a nós próprios, porque é através deles que aprendemos a ver-nos como realmente somos.

Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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