Ana Santiago @ 16:06

Qui, 22/09/11

Naqueles tempos havia um problema em manter o muro do edifício da FCSH branco e imaculado. Na minha secretária perdura uma foto de mim e da Teresa Nicolau trajadas de negro, com a pasta das fitas azuis e verdes de Comunicação, num assomo tardio de tradição académica, em nada a combinar com o estilo da nossa faculdade que, dizem as más-línguas, o primeiro-ministro até queria encerrar. Atrás de nós, o muro, onde se lê em letras garrafais: “Nem mais um soldado para a Bósnia”, e mais uma ovelha negra e uns riscos vermelhos a ornamentar o statement.

A minha primeira polaroid vai inteirinha para esse momento, há 15 anos. Calha bem, porque hoje, nós as duas, mas uns vinte e tal, vamos relembrar esse momento e muitos outros que o antecederam na nossa faculdade da Avenida de Berna, num jantar de magníficos comunicólogos.

À nossa frente, nesse dia, estavam as nossas famílias. Os meus pais ainda não acreditavam que eu tinha acabado o curso. Pudera. Eram os tempos da Rádio Energia, e de Berna a Ceuta era um tirinho no 26. E as aulas do Professor Balsemão eram às oito e não calhavam bem com os directos dos concertos.

Entre os brindes de hoje, e o menu que a mais organizada da turma escolheu, hei-de lembrar-me das horas passadas na esplanada e da vezes que os meus colegas das manifestações anti-propinas (onde eu ia em reportagem) obrigavam-me a comprar o “Rastilho”, edição da associação de estudantes bafejada pelos partidos que preconizaram o Bloco de Esquerda: o PSR, a Política XXI, por aí, nunca cheguei a perceber bem aquilo. Hoje se os encontrasse juro que os beijava e agradecia o facto de termos andado estes anos todos, e até hoje, a dizer que não somos a geração rasca. Somos uma geração que sabe demasiado, mas não teve ainda tempo para mostrar tudo que sabe. Talvez quando passarmos a barreira dos 40 o país nos dê a maioridade que merecemos. Porque, como diz a Teresa, há génios neste mundo.

Hei-de lembrar-me também dos professores que mais me marcaram –Bragança de Miranda e Maria Augusta Babo. Hei-de lamentar algumas aulas a que não fui, como as de Teoria da Imagem e da Representação do João Mário Grilo e de outras hermenêuticas que hoje sinto falta. Hei-de continuar sempre a embirrar com Sociologia da Comunicação. Nunca a entendi. Hei-de recordar os autores que não integrei na altura e que só passados alguns anos começaram a fazer sentido, quando imprimi o seu saber na minha realidade. Agradeço ao Michel Foucault a percepção da minha “quixotice” e ao W. Benjamin o entendimento da cura pelas palavras. Hei-de sorrir por me queixar repetidamente da falta de rapazes na FCSH. Hoje dizem que há mais. Sorte a delas.

E creio que havemos todos de lembrar-nos do jantar pós bênção das fitas, na extinta Feira Popular, ao som do Festival da Eurovisão. Alguns de nós ainda prestavam atenção àquilo. Caramba estamos velhos!

Nesse ano, e não é por acaso, alcançámos a melhor classificação de sempre com a Lúcia Moniz e a canção “O meu coração não tem cor”.
Acredito que hoje, já com novos sons, lounge ou pós-modernos (que já éramos todos), não me vou desiludir. Apesar de termos ganho novas tonalidades, o nosso coração não debotou.

 

 



Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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