Ana Santiago @ 17:24

Qui, 29/09/11

Em breve, disseram-me, vou deixar de ter esta varanda. Mais uma mudança de instalações, no sítio onde pratico os meus deveres públicos, vai obrigar-me a inventar outro espaço para enviar as sms que julgo reflectidas, fazer os telefonemas que invento privados ou organizar a minha agenda mental, aquela que não cabe nos três mil post-it que espalho todos os dias na secretária.

Agora, com o pretexto de fumar, sempre com o pretexto de fumar (abençoada lei), penso que devia ter trazido outros sapatos e que logo à noite vou amaldiçoar o chão que piso. Pelo meio, mete-se o tipo da EMEL que vem outra vez (já é a segunda hoje, e ainda não é a hora do almoço) cobrar o espaço público. “S. eles estão ali, vai tirar o carro. Olha que o reboque já vem lá ao fundo da rua”. Fecho a janela e volto a meter o nariz na rua. Mas porque é que eu não trouxe as sabrinas na mala? E discretamente desloco-me para a esquerda para me mirar na vidraça que dá para a sala desocupada. Ao longe, um avião. Sorrio. Aposto que a S. está dizer que um dia vem contra nós. É a nossa “hora Nicola” versão humor negro. E do meu sétimo andar, mísera torre desta cidade que Nova Iorque podia engolir com a mesma indiferença com que engolimos água sem querer a lavar os dentes, eu concordo com a senhora que há muitos anos me disse que eu nunca iria viver no estrangeiro. Que a minha missão era aqui. “Tá? Ana? Como é que se chama aquele actor, que entrou naquele filme, com aquela actriz que fez aquele filme da segunda guerra, com aviões, e é casado com aquela gira da série dos espiões?”. É o Ben Affleck. “Eh pá, é isso! Vês? Tu percebes-me sempre”. É um dom.

E estou ainda a pensar na minha missão quando vejo lá em baixo o senhor J. da segurança a fazer sinais ao “agente” da EMEL. Braceja, indigna-se e dentro de três segundos vai ligar a avisar toda a gente que “eles andam aí”. Será que pus moedas? O senhor J. tem uma missão e não lhe dá importância. Não se dá importância.
Ontem dei-lhe boleia até ao metro. Contou-me que levanta-se todos os dias às 5 e meia e fecha a porta da torre quase sempre depois das dez da noite, para se fazer ao caminho até casa durante duas horas. “As horas extraordinárias dão-me jeito sabe?” Espero sinceramente que sim. Há pessoas menos substituíveis que outras. E eu habituo-me às pessoas. E às varandas.



Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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