José Maria Barcia @ 18:12

Seg, 16/01/12

Nos tempos que correm há pelo menos duas vidas: a real, aquela que cansa e a virtual, a imaginária e moldável.

 

Esta segunda é muito mais fixe. Podemos escolher que fotografias queremos mostrar, que ideia queremos passar, que coisas queremos mostrar. E esconder tudo o resto. Esta vida virtual, alimentada pelos facebooks, twitters e companhias difere um pouco da real. É como quem conta um conto acrescenta um ponto. Só que desde vez o conto é a nossa vida. Ao pormenor e quase ao segundo.

 

A vida facebookiana alimenta-se de ''likes''. Um video, uma música ou um pequeno texto sem um ''like'' é um pormenor nosso falhado. É algo feito que, na cabeça de quem o partilhou, achou ser importante partilhar. É um auto-elogio da nossa vida, ou melhor de um momento dela. Mas sem ''likes'' não há festa. Passou despercebido. E na vida virtual, não há nada pior que não ser notado.

 

Estas premissas levam-nos, então, ao regime autoritário conhecido como a ditadura do ''like'', ou para os politólogos de renome, o likeismo. O likeismo, como os politólogos de renome chamam a este conceito, traduz-se na alimentação constante da vida virtual, na escolha minuciosa dos pormenores a partilhar e finalmente, na democratização dos gostos. Percebo que aqui cresça uma pequena dúvida. E perguntam vocês, distintos leitores mas sem a óbvia capacidade de analisar dados políticos que pessoas como eu, politólogo reconhecido além-mar (há uma ilha no meio do Pacífico que me venera como, obviamente, mereço. Mas tem 3 habitantes: um está demente e os outro dois são gaivotas) consegue.

 

Eu explico, a democratização dos gostos corresponde apenas à demagogia da vitória da maioria. Só a maioria tem direito a expressar o que é bom e o que é mau. Um texto fantástico, uma música estupenda ou uma fotografia mais que bela de nada interessam se os ''likes'' ficarem aquém do esperado. O futuro Nobel da Economia pode explicar, através do seu perfil de facebook ou timeline do twitter, como acabar com a fome no mundo que não interessa. Sem as bases apropriadas para espalhar a ideia, o futuro Nobel torna-se apenas num nerd com mania que percebe de contas números.

 

Torna-se claro, portanto, que as redes sociais implicam uma partidarização da coisa: um grupo de fiéis seguidores quase cegos sustentam a força da nossa vida virtual. Estes seguidores devem ser de mentalidade pouco crítica e sempre disponíveis a carregar no botão ''eu gosto'', ''like'' ou em espanhol, e pessoalmente o meu favorito, ''me gusta''. Na medida em que estes alimentam o seu ídolo, têm de receber alguma contribuição. Deve o líder da grupeta disponibilizar, mas raramente, alguns ''likes'' de modo a que os pequenos seguidores se sintam minimamente importantes dentro da ditadura.

 

Concluíndo, há várias maneiras de um se tornar líder do likeísmo, ou como os politógolos que como eu são reconhecidos além-mar gostam de os denominar, o likente-mor. O primeiro critério assenta no nascimento: ser mulher, e muito mais muito, gira. Não interessa o que dizem ou fazem. Um like de um sujeito assim cria um aumento enorme do bem-estar social, no likado. Mesmo que seja só um em 3 anos, o seguidor sentir-se-á obrigado a gostar de tudo o que a likente-mor fizer/disser.

 

De seguida, a profissão: actor, músico, artista no geral, futebolista ou outra coisa qualquer que englobe aparecer diversas vezes no quotidiano da população. Qualquer coisa dita é certa e válida, mesmo sendo a maior imbecilidade dita desde o Big Bang.

 

A terceira é um ramo da segunda: o critério da qualidade da profissão. Estes likentes-mores caracterizam-se por serem representantes de uma ideia ou facção. E desde que sigam essa ideologia terão ''likes'' suficientes para manterem a posição.

 

Por último, aquilo que a democracia tem de bom: a capacidade do outkast, aquele que aparece do nada, chegar a chefe do grupo. Mais difícil que qualquer outra maneira de chegar ao topo da rede social, este inicialmente ostracizado pelos outros, torna-se importante, começando por juntar os amigos mais próximos e assim sucessivamente, alargando a sua rede de influência. Este último trabalha diariamente para isto. Responde a todas as  perguntas e  comentários, participa em conversas noutros perfis e desafia constantemente os adversários do mesmo nível, e, de vez em quando, os superiores. Este é o que menos liberdade possui no exercício de poder pois os seus seguidores são os mais críticos. Qualquer falha e há 100 a querer substituí-lo.

 

Fica então esta brilhante e modesta consideração sobre a nossa segunda vida.

 

Do sempre vosso politólogo favorito. Façam favor de dar um ''like''.

 

 

 

 

 

 



Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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