João Gomes de Almeida @ 00:22

Seg, 23/01/12

Em matéria de casamentos, o povo português é realmente o melhor do mundo. Todos temos uma opinião a dar e todos temos igualmente um episódio a contar. Para o comprovar, convido o estimado leitor a fazer uma pesquisa no Google Portugal (restringindo a mesma apenas a sites do nosso país) sobre a palavra "casamento" - rapidamente ficará surpreendido ao reparar que existem dez milhões e duzentos mil sites a falar sobre o assunto. Ou seja, existem tantos portugueses em Portugal, como portugueses a falarem do casamento na internet. Por outro lado, se fizermos a mesma pesquisa com a palavra "divórcio", apressadamente percebemos que só há um milhão trezentos e oitenta mil sites a referirem o mesmo. Pouco mais há a dizer, somos românticos, piegas, pirosos e antiquados o quanto baste, e ainda bem.

 

A verdade é que os hábitos mudaram e a juventude é o seu reflexo. O mundo é mais liberal e os casais ainda mais, namora-se muito, saímos tarde de casa dos nossos pais e nunca pensamos em casar. Aí é que o leitor se engana. Nós portugueses, jovens portugueses, continuamos a casar - mesmo em situação de crise, com empregos precários, vidas remediadas e futuros incertos. A bem da verdade, também existem mais divórcios, mas de que interessam? Recordo, dez milhões e duzentos mil de nós escrevemos na internet sobre casamento e apenas um milhão e tal é que escreve sobre o divórcio. Os românticos venceram, ponto final.

 

Mas já agora. O estimado leitor já pensou no porquê disto ser assim? É verdade, outra vez o estúpido do amor. Certo dia, vamos a um encontro de trabalho beber uns copos com profissionais da nossa área, metemos conversa com uma formosa rapariga e pedimos que nos segure o copo enquanto acendemos o cigarro. Aí o mundo como que se altera, as prioridades invertem-se e tempos depois estamos a pesquisar no Google sobre "casamento".

 

Agora, quando acabar este texto, já serão dez milhões duzentos mil e um sites a falar sobre o casamento em Portugal. Pois é, aqui estou eu, romântico, piegas, piroso e antiquado, mas apaixonado o quanto baste. Não se preocupe caro leitor, não tarda e entrará também para esta lista - tenha cuidado a quem pede para segurar o seu copo enquanto acende o cigarro.




João Gomes de Almeida @ 03:38

Qui, 08/12/11

Hoje tive uma noite irracional, daquelas em que parece que não há crise - o lado racional está meio arrependido, confesso.

 

Posso dizer que já não saía há algum tempo em Lisboa, no máximo era rapaz para pegar na miúda e ir beber uns copos a um bar. Mas reconheço que esta Lisboa me parece outra Lisboa. A crise, incompreensivelmente, parece ter arrumado melhor a noite da cidade, tudo está mais calmo, na medida do possível, e no geral melhor.

 

Jantámos no Snob, onde agora há um agradável menu de bom gosto a 12 euros, em que o meio-bife (que chega bem para qualquer matulão do meu tamanho) acompanha com um copo de tinto (a miúda bem tentou pedir branco), mais pão e café (de saco unicamente, como é tradição). Depois descemos o Príncipe Real até ao Bairro Alto (infelizmente cada vez mais degradado e degradante) para um copo e lançamento do "Meu Pipi", feito pelo Miguel Guilherme, no Frágil.

 

Já que falo do Frágil, convém dizer que é dos únicos sítios da noite de Lisboa onde me sinto bem (mandem lá a piadola). Ambiente relaxado, sem gente a mais para o espaço, onde se pode sentar e falar, mas também dançar e beber, encontrar pessoas e discutir coisas. No geral a música é boa e por vezes convida até a discussões, onde me sinto quase sempre excluído por manifesta iliteracia musical.

 

Há meia-noite virei a cadeira e dei um beijo, um abraço e outro beijo, a data merecia e daí o irracional da noite. É bom estarmos felizes juntos de quem gostamos e nos sítios dos quais gostamos. O Carlos Tê escreveu que "não se ama alguém que não ouve a mesma canção", eu aconselharia antes a não nos apaixonarmos por quem frequenta os sítios dos quais não gostamos.

 

A vida é feita de desencontros mas acredito que ainda mais de encontros. O grupo do costume, juntamente com as pessoas que não são do costume, nem do grupo, mas que pareciam ser do grupo e do costume  (que a esta hora da noite acredito que até já sejam), voltou a descer o Bairro. Fomos ao aniversário do Music Box que esse sim não dá margem para questionarmos o nível de selecção musical (obra e graça do Alex Cortez). Tenho a dizer que foi bom, muito bom, como sempre.

 

Nesta última descida nasci para aquilo que é o novo Cais do Sodré. Há muito pouco tempo um sítio mal frequentado e de fama duvidosa, hoje o sítio mais em voga da movida lisboeta. As pessoas desfilavam naquela enorme passadeira cor-de-rosa e eu abraçava a miúda, alegre (penso eu) na comemoração de tão importante data. Por momentos, vários, diga-se, senti-me fora de Lisboa e pensei estar por entre as Ramblas - sempre que despertava do sonho sorria para dentro e orgulhava-me por viver em Lisboa, nesta nova cidade do Cais do Sodré.

 

A paixão é coisa trôpega, que nos prende os movimento cerebrais. Talvez por isso e pela data em questão, esta noite em Lisboa tenha parecido tão especial, tão amiga e romântica. Mas amarmos é isto mesmo, é sermos felizes ao redescobrirmos as ruas já mil vezes pisadas pelos nossos mesmos dois pés, que agora nos trocam as contas por se tornarem quatro.

 

 

Também publicado no Forte Apache




João Gomes de Almeida @ 00:31

Qua, 30/11/11

O amor que sentimos por quem amamos pode e deve ter uma definição política, que não tem que ser necessariamente a nossa orientação política. Durante os últimos dias tenho reflectido bastante sobre o assunto. Alguns de nós somos uma espécie de anarco-sindicalistas, principalmente quando refilámos dos sogros que temos, outros são fascistas, quando deixam que o ciúme se transforme em possessão. Há inclusive seres que são um tipo de democratas-cristãos de índole sexual, atrevendo-se pouco a experimentar coisas novas e tendo algum pudor em falar com a sua paixão sobre o assunto.

 

Eu a ter uma ideologia no amor - e sabendo que todos temos uma - acho que sou marxista-leninista-trotskysta-morenista. Ora vejamos, abstenho-me de perder muito tempo a explicar a dialéctica marxista, mas aqui vai: defendo a igualdade, ou seja, o comunismo do amor - acredito piamente na ditadura do proletariado aplicada aos sentimentos, em que todos lutamos contra o pior dos males: o amor capitalista e materialista, que neste momento, ameaça de extinção os longos e doces beijos à chuva e as cartas pirosas com frases roubadas ao Esteves Cardoso através do Google.

 

Esta coisa, chamada Google, aliás, transformou-se - não tenho medo do dizer - no Pravda do amor moderno, ou se preferimos, no livrinho vermelho do Mao que transportamos no bolso, mas agora em formato de telemóvel, para sacarmos sempre uma grande frase para conquistarmos quem amamos.

 

O leninismo amoroso já é outro passo. É a acção da paixão, a conquista do czar, a mobilização das tropas para que todos os Outubros sejam vermelhos como a rubra paixão. São todas as nossas forças materializadas nos camponeses e operários que se lançaram para a frente na conquista de S. Petersburgo. O amor é uma revolução leninista, não se trata de uma transição pacífica ou de um referendo popular, mas sim de um acto de rebeldia que só pode ser imposto pela violência dos sentimentos.

 

Agora que todos já estão pensar que sou um cunhalista do amor português é que chega o trotskysmo. O apelo da revolução permanente e internacionalista, que deve ser feita sempre e em qualquer lado. É a continuação do leninismo, a coragem de lutar sempre e todos os dias, para que o amor dê certo, para que a revolução nunca tenha um fim. Amar é fazê-lo todos os dias e se nos lembrássemos mais de Trotsky certamente que não existiram tantas zangas no amor.

 

O meu amor é mesquinho, por isso sou morenista. O morenismo é uma corrente trotskysta criada por Nahuel Moreno, líder revolucionário argentino e autor do livro "O partido e a revolução", que rompeu com a corrente dominante da IV Internacional trotskysta, liderada na época pelo belga Ernest Mandel. O motivo? Aí está o cerne da questão: o sandinismo na revolução da Nicarágua. Mas que raio, como é que um argentino e um belga se zangam por causa da Nicarágua? A verdade é que Nahuel Moreno, que já tinha pertencido à III Internacional, abandonou Mandel e fundou a LIT - IV Internacional. Também no amor sou assim, mesquinho o quanto baste para ligar a todos os pormenores e para me chatear e preocupar com tudo e mais alguma coisa.

 

No fundo, o meu amor talvez seja tão utópico como as ideias de Marx, Lenine, Trotsky e Moreno. Mas de qualquer forma, o meu amor é de quem acredita, de quem o vive como se fosse o maior dos objectivos políticos, a maior das causas e a maior das guerras. Amar é sermos isto mesmo, sonhadores, indecisos, irreverentes, revolucionários e utópicos, isso mesmo, utópicos.

 

Amo como quem se levanta todos os dias acreditando que vai mudar o mundo, ao teu lado, fazendo a nossa própria revolução.




João Gomes de Almeida @ 02:18

Ter, 04/10/11

 

Rodrigo Leão & Lula Pena - Passion

 

 

Os grandes amores são os incompreendidos. Aqueles que ficam para a história e que de uma paixão se tornam ventres capazes de parirem estórias.

Os grandes amores são os amores proíbidos. Aqueles que os poetas carregam na bagagem e contam aos adolescentes ternorentos que sonham que um dia os proíbam de amar.

Os grandes amores são amores feitos palavras, romanciádos e passados de geração em geração. Aqueles que carregamos no peito como se de um punhal em ferida se tratassem.

Os pequenos amores, esses, são aqueles que se deixam subtrair pela futilidade. São os casais de que toda a gente gosta, que têm a bênção dos pais, das mães, dos avós, dos vizinhos, dos cães e dos peixes. São os amores do costume, tão amargos que rapidamente deixam de ter sabor. Não passam de um amor de pantufa, sossegadinho e com medo de ferir susceptibilidades. Esses amores são a merda a que a gente burra chama amor. 

Sempre que desejamos que o nosso amor se torne fácil, apenas o estamos a tornar mais fútil.


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Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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