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Polaroid

Polaroid

23
Set11

Robert Morris em Serralves.

Tomás Vasques

 

 

Se tiver oportunidade (se morar na zona do grande Porto é imperdoável) não deixe de ver ROBERT MORRIS (Filmes e Vídeos/corpo espaço movimento coisas), em Serralves, até 23 de Outubro. Fui lá na quarta-feira e, apesar de conhecer parte da obra do artista, ultrapassou as minhas expectativas. A interacção dos visitantes com a obra é uma permanente performance dentro da exposição.

«Robert Morris (Kansas City, EUA, 1931) é, desde as décadas de 1960 e de 70, um dos grandes protagonistas da mudança da paradigmas nas linguagens artísticas contemporâneas. Esta exposição apresenta uma retrospectiva dos seus filmes e vídeos, experiências das mais inovadoras da segunda metade do século XX sobre a relação das artes visuais e performativas com o cinema, explorando quer enqunto linguagem artística quer enqunto mei de documentação de acções efémeras.» (no Catálogo)

23
Set11

Viva a Revolução!

Tomás Vasques

 

 

Há um raciocínio simples – tão simples que até assusta – na cabeça dos nossos actuais governantes: na economia de mercado a produção de riqueza está entregue à iniciativa privada; as empresas – através das quais se desempenha essa função – são pouco produtivas e pouco competitivas (de onde resulta, por exemplo, que o tomate espanhol entra em Portugal mais barato do que o produzido por cá ou que os nossos têxteis tenham dificuldade em competir no mercado externo). Isto, num mercado aberto e global aumenta as importações e diminui as exportações. E leva-nos à desgraça. Que fazer, então? Para produzirmos «riqueza», se não se pode desvalorizar a moeda, nem penalizar à má gestão das empresas, reduz-se o custo do trabalho – empobrece-se quem trabalha até ao osso. A coisa é fácil: diminuem-se os salários, o valor das horas extraordinárias, as indemnizações por cessação de contrato e por aí fora e saca-se mais algum, em impostos, sobre os seus «rendimentos». E, agora, parece que sempre que um empresário diminuir a rentabilidade da sua empresa ao pegar na mulher, nos filhos, na cunhada, na prima e no gato e parta de férias para a Tailândia, à custa dos dinheiros da empresa, no regresso, pode despedir um trabalhador para compensar a «perda de produtividade».

O resultado de tudo isto, vai ser, em menos de uma década, a criação de um exército de famintos, sem vida, nem comida; sem protecção, nem no trabalho, nem na saúde, endividados até ao tutano e desempregados. E, com um bónus para a produção de «riqueza»: passa a ser mais fácil contratar cada vez a preço mais baixo.

Se são estes os caminhos que o século XX produziu; se são estes os caminhos da democracia, da solidariedade, da sociedade mais justa e igualitária; se são estes os caminhos da Europa dos povos, que venha uma Revolução!

Pobre por pobre, tanto faz!

22
Set11

nunca mais foi um soldado para a Bósnia

Ana Santiago

Naqueles tempos havia um problema em manter o muro do edifício da FCSH branco e imaculado. Na minha secretária perdura uma foto de mim e da Teresa Nicolau trajadas de negro, com a pasta das fitas azuis e verdes de Comunicação, num assomo tardio de tradição académica, em nada a combinar com o estilo da nossa faculdade que, dizem as más-línguas, o primeiro-ministro até queria encerrar. Atrás de nós, o muro, onde se lê em letras garrafais: “Nem mais um soldado para a Bósnia”, e mais uma ovelha negra e uns riscos vermelhos a ornamentar o statement.

A minha primeira polaroid vai inteirinha para esse momento, há 15 anos. Calha bem, porque hoje, nós as duas, mas uns vinte e tal, vamos relembrar esse momento e muitos outros que o antecederam na nossa faculdade da Avenida de Berna, num jantar de magníficos comunicólogos.

À nossa frente, nesse dia, estavam as nossas famílias. Os meus pais ainda não acreditavam que eu tinha acabado o curso. Pudera. Eram os tempos da Rádio Energia, e de Berna a Ceuta era um tirinho no 26. E as aulas do Professor Balsemão eram às oito e não calhavam bem com os directos dos concertos.

Entre os brindes de hoje, e o menu que a mais organizada da turma escolheu, hei-de lembrar-me das horas passadas na esplanada e da vezes que os meus colegas das manifestações anti-propinas (onde eu ia em reportagem) obrigavam-me a comprar o “Rastilho”, edição da associação de estudantes bafejada pelos partidos que preconizaram o Bloco de Esquerda: o PSR, a Política XXI, por aí, nunca cheguei a perceber bem aquilo. Hoje se os encontrasse juro que os beijava e agradecia o facto de termos andado estes anos todos, e até hoje, a dizer que não somos a geração rasca. Somos uma geração que sabe demasiado, mas não teve ainda tempo para mostrar tudo que sabe. Talvez quando passarmos a barreira dos 40 o país nos dê a maioridade que merecemos. Porque, como diz a Teresa, há génios neste mundo.

Hei-de lembrar-me também dos professores que mais me marcaram –Bragança de Miranda e Maria Augusta Babo. Hei-de lamentar algumas aulas a que não fui, como as de Teoria da Imagem e da Representação do João Mário Grilo e de outras hermenêuticas que hoje sinto falta. Hei-de continuar sempre a embirrar com Sociologia da Comunicação. Nunca a entendi. Hei-de recordar os autores que não integrei na altura e que só passados alguns anos começaram a fazer sentido, quando imprimi o seu saber na minha realidade. Agradeço ao Michel Foucault a percepção da minha “quixotice” e ao W. Benjamin o entendimento da cura pelas palavras. Hei-de sorrir por me queixar repetidamente da falta de rapazes na FCSH. Hoje dizem que há mais. Sorte a delas.

E creio que havemos todos de lembrar-nos do jantar pós bênção das fitas, na extinta Feira Popular, ao som do Festival da Eurovisão. Alguns de nós ainda prestavam atenção àquilo. Caramba estamos velhos!

Nesse ano, e não é por acaso, alcançámos a melhor classificação de sempre com a Lúcia Moniz e a canção “O meu coração não tem cor”.
Acredito que hoje, já com novos sons, lounge ou pós-modernos (que já éramos todos), não me vou desiludir. Apesar de termos ganho novas tonalidades, o nosso coração não debotou.

 

 

21
Set11

Das palavras, do silêncio.

Nuno Miguel Guedes

É provável que ao longo de toda a nossa vida o desafio seja o mesmo: conseguir dizer o que realmente pensamos, o que realmente sentimos. Na verdade, trata-se apenas disto: com as palavras superar as próprias palavras, nas suas limitações gráficas, sintáticas e tristes que mal as colocamos no papel nos travam naturamente o tudo que queríamos dizer. 

 

Nunca conseguirei dizer «amo-te» ou «quero-te» como realmente o sinto. Nunca. Ao princípio não é nunca o verbo, é um mistério qualquer a que por conveniência chamamos alma. E que depois, com sorte ou talento, tenta-se chegar o mais próximo possivel  ao que as palavras e as suas fronteiras querem dizer. 

 

É por isso que gosto de polaroides. Como as palavras, elas apenas reflectem instantes eternos, muitas vezes profundos, outras fúteis - mas sempre verdadeiros. Não vejo maior ambição do que essa e é isso que tento fazer sempre que escrevo, mesmo qundo isso se limita ao que chamamos ganhar a vida. 

 

«Todas as palavras me incomodam», dizia Cioran, que apesar de não ser o mais optimista dos seres humanos sabia que mesmo o pessimismo tem de ser escrito. Também a mim, porque sei que a pureza - e toda mas toda a liberdade - reside apenas no que não se diz. No silêncio. Tudo tende para lá e o desafio - outra vez - é fazer com que o que se escreve se vpareça o mais possivel com o silencio onde tudo se sente. Há quem consiga isso, quem tenha conseguido:«Um mover d'olhos, brando e piedoso,»: eis o exemplo de uma perfeita polaroide escrita, onde tudo se vê e as palavras tudo silenciam. Há esperança, portanto.

 

Voltando ao que disse, enfatizo: são as palavras que me fazem ganhar a vida. E não estou a falar de remunerações outras senão a própria vida vivida. Assim aqui me compreendam.

20
Set11

Elogio às pessoas más

José Maria Barcia

 

 

Diz o cliché que não há bem sem mal. Que sem escuridão não existe luz.

 

É-me, portanto, natural um agradecimento aos negativos. Como numa polaroid. Do nada, do escuro vem a imagem.

 

Ora, voltemos então aos maus da fita. Porque os há. Porque ou nasceram assim ou porque ficaram assim. São más, essas pessoas, independentemente da origem da maldade. Mas diferem entre si.

 

O meu tipo favorito de pessoas más são aquelas cujo simples presença torna-as intragáveis. Cujo convívio é insuportável. Essas pessoas nunca souberam ser boas e, como tal, têm a consciência disso. Não escondem que são más nem fingem que são boas. São más e pronto.

 

Com esses ainda consigo ir jantar.

 

Do outro lado da coisa, estão os falsos. Os que escondem a falta de carácter, os que disfarçam a mesquinhez, os que parecem bons. Estes prendem-se na ilusão de amizade que passam aos outros. E esperam. Esperam pela melhor oportunidade para mostrar toda a sua podridão. Mas quando mostram - oh, se mostram - é de forma espantosa. É o equivalente a uma barragem cheia a desmoronar-se, engolindo vales e aldeias. 

 

Enquanto o primeiro tipo de pessoas más ainda consegue ter perdão, às segundas é-me impossível tal acto de caridade. 

 

Contudo, ainda bem que existem pessoas más. Proponho até um dia reservado a elogiar e festejar estas pessoas: dia nacional da escumalha, dia internacional dos mesquinhos. Melhor ainda, logo a seguir ao feriado de de Todos os Santos, ter o feriado de Todos os Merdas.

 

E porquê elogiar toda este podridão humana (ou animal, depende da liberdade poética)?

 

Simples, porque sem maus, não há bons. Apesar da constante bosta que se vê no dia-a-dia, há sempre casos que por mais pequenos, chegam para restaurar a sanidade despendida no dia-a-dia. Num quarto escuro a mínima luz é visível.

 

Recordo-me de quando estava num autocarro apinhado a caminho de casa. Estava em pé e reparei numa senhora mais idosa, daquelas com cara de avó muito protectora. Quando o autocarro parou na estação seguinte reparei que essa senhora estava sentada à espera do próximo. Não porque se irritou com as pessoas mas porque quis dar o lugar a outras pessoas. Olhei para ela e pela  cara que fiz ela percebeu a minha dúvida, ''porque estava ela ali, à espera?''. Limitou-se a encolher os ombros e com um sorriso despediu-se. Isto passou-se em 2003. Ainda hoje me lembro. Basta ver uma coisa destas de vez em quando.

 

Portanto, obrigado. Obrigado aos merdas, aos mentirosos, aos traidores, aos que praticam a filha-da-putice todo o santo dia. A todos vós, o meu sincero agradecimento. Fazem-me saber o que não quero ser. 

20
Set11

Um amor de senhoria

João Gomes de Almeida

Os requesitos da minha senhoria não são os meus requisitos e ainda hoje não sei bem o porquê.

Imaginava-me a viver contigo e a ter filhos, ou cães, ou gatos, ou a aturares-me a mim - como diria o João. Nunca falei com a senhoria e não sei o que ela quer de mim, mas sei exactamente o que tu queres de mim, o que pode quase ser uma desvantagem.

Sei que és rapariga para acreditar que eu sou um príncipe encantado, que não atende chamadas, que tem medo de tudo e que acima de tudo tem medo de te perder, mas, mesmo assim, sou um príncipe, ou então, um mero sapo.

Vou falar, mesmo que não querias, do príncipe que gostaria de ser - e tu sabendo que eu sou monárquico.

Gostaria de ser alto e inteligente, bem-falante e compositor de cantigas de amor, gostaria de ser frio e distante, naqueles momentos que precisas. Queria mesmo era ser conquistador, para te mostrar como a nossa felicidade se poderia tornar facilmente numa dor.

Mas sou apenas um sapo, mal-falante e parco escritor de prosas de amor. Sou assim e não sei se gosto da minha senhoria. Mas sei que gosto de ti, da nossa casa e do gato bem-miante que ainda nem nasceu. Na verdade, meu amor, sou um triste e muito perdedor. Mas sei que te amo, mesmo no telefone longínquo e na dor que te perde ao sentires que não estou perto.

Amor, sabes que sou frio ao ponto de te dizer: amo-te - como quem ama a senhoria e quer mesmo viver contigo, sem nunca te perder.

19
Set11

Blogue Polaroid. Nota de Abertura.

Tomás Vasques

Dizem por aí – talvez as más-línguas – que a blogosfera perdeu gás;

Que já não é o que era;

e que está acirrada à volta da política, como se a política fosse feita de rancores.

Se é verdade, o blog Polaroid nasce contra a corrente.

Queremos captar cada instante, cada momento do quotidiano.

Da vida.

Dos livros que lemos;

da música que ouvimos;

das exposições que visitamos;

dos amores e desamores do dia a dia;

da política, também, obviamente.

E de tudo o resto que se capta num instante;

num segundo;

com uma Polaroid na mão.

E uma caneta na outra.

Às vezes apenas uma conversa de café;

outras, um sorriso fugidio que não queremos deixar escapar.

Porque os dias são longos, mas correm depressa;

depressa demais para os agarrarmos.

Reunimos toda as diferenças num espaço de prazer,

com os nossos valores, crenças e embirrações.

Somos sete,

como sete são os dias da semana.

Sete instantes.

Sempre com uma Polaroid na mão.

E uma caneta na outra.

E, sobretudo, em a liberdade.

 

Blogue Polaroid.

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Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".

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