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Polaroid

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20
Out11

Os telefonemas da minha prima Hermenegilda.

Tomás Vasques

«Mudou o Governo, mas eu não mudei de opinião» – disse, ontem, o presidente da República à saída de um congresso de economistas. Fiquei a cismar na frase. Estava eu em meia sonolência, meia meditação, a pensar que uma frase destas, quase um programa de campanha eleitoral, não sai da boca do mais alto magistrado da Nação por acaso, tem de ter destinatários, quando me telefonou a minha prima Hermenegilda, mulher danada para estas coisas da intriga política. O que me vale é que ela é sempre muito sintética e nem me dá oportunidade de a contestar: olá – disse-me, como cumprimento, e continuou – percebeste que até o Cavaco Silva topa-os melhor que o António José Seguro. Hermenegilda? – Disse eu, numa tentativa de estabelecer o diálogo, mas ela, em voz acelerada, rematou: agora não tenho tempo. E desligou. Fico sempre irritado com estes telefonemas da minha prima Hermenegilda.

18
Out11

Quando o ser humano consegue o impossível.

João Gomes de Almeida

 

O António Nascimento tem 41 anos e é um atleta que se superou sempre ao longo da vida. Primeiro, ainda novo, venceu inúmeros troféus de artes marciais, depois dedicou-se ao atletismo e hoje treina todos os dias para ser o primeiro português a participar na prova Ultraman, no País de Gales. Para quem não conhece, trata-se da prova da elite do atletismo mundial, apenas acessível por convite, onde os participantes fazem 400 km de bicicleta, 84,3km a correr e 10 km a nadar, tudo isto em apenas 3 dias - muitos, em edições anteriores, não sobreviveram ao esforço.

O António mantém actualmente este Facebook, onde podemos acompanhar o seu treino, enviar mensagens de incentivo e colocar questões. Agradeço a todos que vão lá visitar e que divulguem junto dos vossos amigos - ele merece.

18
Out11

Forever not young

Ana Santiago

“Odeio pessoas com menos de 30 anos”. Digo-o muitas vezes. Sempre
a brincar, porque na realidade não as odeio, invejo-as. Não se fala muito disso
porque parece coisa feia, mas a minha geração, nascida nos 70, está com ganas de
imitar a geração nascida nos 80/90. Não sou da Sociologia, nem da Antropologia,
não sei fazer inquéritos, estudos e estatísticas. Quando muito, faço trabalho
de campo. E aí não há trejeito, moda, tendência, vocábulo, olhar, toque, que me
escapem. Pela observação participante, sem que ninguém me tenha mandatado, atrevo-me a falar da minha geração que só agora, a caminho muito chegado aos 40, começa a desembrulhar-se de uma série de equívocos e de um coma (auto)induzido, paralisada
algures entre uma geração de progenitores que a iniciou na tetralogia
“família-casa própria-carrinha-emprego seguro” e as gerações anteriores
(nascidos nos 50 e nos 60) desses malucos que viveram à grande os 80,
conheceram todo o tipo de cogumelos fora da lata e passaram por propedêuticos
vários de perda da inocência. A minha geração, que jogava ao bate-pé, e sabe a
canção do Dartacão de cor (somos muito cromos), tem andado estes anos todos
como se vivesse eternamente um Verão Azul ou no filme O meu primeiro beijo.
Somos a mais inocente das gerações, quando todas as outras encetaram formas de
descomprometer-se com algum cinismo, a que chamam crescimento.

Temos vivido entalados entre: pais geralmente certinhos, que não pediram dinheiro
ao banco para pagar casas e máquinas de lavar, e raramente se divorciaram, e
amigos mais velhos que partiram a loiça toda na juventude e até sabem dizer
onde estavam no 25 de Abril. Nós somos, roubando o rasgo de raciocínio original
a um grande amigo meu, “um estilhaço da revolução” ou, isto digo eu: um
espermatozóide que queriam tivesse saído aos pais mas mais se parece com um
primo afastado, aquele de que toda a gente diz “saiu-se bem na vida”, mas que
nunca aparece, nem sequer em casamentos e funerais.

E que vida tem sido a nossa? Numas manifestaçõezinhas na faculdade regadas com vinho rasca; a licenciar-nos em cursos nos quais foi
difícil ingressar (no tempo em que entrar para a faculdade era muito mais difícil
do que conseguir um crédito à habitação); a casar e a descasar; a ficar casado
porque as dívidas unem os casais; a trair com vergonha primeiro, à descarada
depois; a ter filhos para os quais não temos tempo, mas também aos quais damos
mais atenção do que nunca, nem que isso nos custe a sanidade mental (somos os
melhores pais do mundo, e digo-o sem cinismo, porque a minha geração não sabe o
que isso é); a hipotecar-nos a bem da estabilidade que nos desejaram; a
construir carreiras de sucesso que ora pomos em causa com crises existenciais,
ora defendemos com unhas e dentes agarrados a uma triste concepção de emprego
para a vida, quando os saldos bancários são cada vez mais negativos e as
aspirações cada vez mais altas.

Andamos assim. Ainda num limbo. Com a clara noção que deu
tudo errado, mas a achar que ainda pode dar certo. Ou não fôssemos os inocentes
desta vida que não desistem do amor, da família, da carreira, da noite, dos
amigos, da juventude que perdemos a ensaiar convicções que herdámos, vivemos,
mas já não projectamos. Não nos apetece. Queremos começar a fazer à nossa maneira.
Agora que a democracia já não é um sucesso e os bancos e todos aqueles a quem
vendemos a alma vêm cobrar-nos, estamos a acordar do coma, nem que seja porque
levamos um valente estalo quase todos os dias. Nem que seja porque pomos os
olhos na geração que veio depois, que não arranjou empregos como nós, mas lança-se
na vida com a garra que não tivemos de ter; que está, na sua maioria,
literalmente nas tintas para a política, é verdade, mas pelo menos não cria
ilusões; que tem anos e anos de dificuldades pela frente, jamais sonhando com
reformas ou subsídios de Natal e de férias, mas não tem de olhar trás. Porque
eles, que eu digo odiar, só vêem para a frente. E têm tanto tempo mais que nós para isso.

E assim, nós, que sabemos mais do que eles todos, queremos voltar atrás. Como se pudéssemos enganar o tempo, esculpi-lo com a nossa
experiência e o poder das ideias que parecem-nos finalmente simples, como se tivéssemos estado todos estes anos sentados em cima do ovo de colombo. Queremos voltar atrás com o trunfo de já sabermos tanto para a frente. Num arrepio de caminho
retroactivo, começamos a dividir casas uns com os outros, a aprender novas
noções de família, a deixar de fazer compras no supermercado para o mês e a viver
o dia-a-dia com menos ganância, porque perdemos o medo de perder. Já não
queremos hipotecar o futuro, e a única coisa que nos interessa amortizar é o
envelhecimento. Nunca a juventude foi tão protelada, como connosco. Somos mais
jovens que os “jovens agricultores” que apareciam no programa TV Rural, com barba branca e netos escondidos atrás do tractor. Agora deu-nos para o charme e para ter filhos na barreira dos 40. Os vintinhos e os adolescentes hão-de agradecer-nos isso. Temo até que se cansem de tanta juventude e estraguem tudo, porque não perderam tanto tempo como nós a ser velhos.

17
Out11

A minha geração indignada.

João Gomes de Almeida

 

Nunca consegui ter uma posição clara sobre o movimento dos “indignados”. Por um lado, confesso que olho com algum desprezo para alguns dos organizadores destas manifestações, por outro, compreendo a simpatia que o movimento consegue acolher junto de muitas pessoas da minha geração.


Em primeiro lugar, tenho a dizer que acho patético olhar para estas manifestações e ver tipas de vinte e muitos anos, licenciadas em Antropologia, com um mestrado em Ciências da Cultura e seis meses de Erasmus em Roma, pensarem que a formação que todos nós lhes financiamos no ensino público, lhes dá direito a um emprego (9 anos de ensino básico + 3 anos de ensino secundário + 3 anos de primeiro ciclo de Bolonha + 2 anos de segundo ciclo de Bolonha = 17 anos, no total).


Sejamos claros, o Estado, ou seja, todos nós, já garantimos a estas meninas as bases para arranjarem um emprego e se não o arranjaram foi apenas por dois motivos: primeiro, porque escolheram um curso que sabiam que à partida não tinha empregabilidade; segundo, porque pensaram que um simples diploma lhes garantia o acesso a uma promissora carreira profissional.


Deixo agora uma pequena reflexão: quantos dos indignados que estiveram presentes naquela manifestação, se preocuparam, durante o curso superior, em criarem networking profissional junto das empresas e profissionais da sua futura área de actividade? Quantos utilizaram as redes sociais profissionais, como o LinkedIn, por exemplo, para o fazer? Quantos se preocuparam em produzir material crítico, na blogosfera, por exemplo, de forma a se tornarem líderes de opinião na sua futura área de trabalho? Quantos utilizaram as redes sociais como o Facebook, Twitter e o Google +, para divulgarem o seu trabalho académico e trocarem informações com os seus futuros colegas? Quantos fizeram parte de associações da sua futura indústria, sendo parte activa e participante nas suas actividades? Quantos produziram material científico para revistas académicas da especialidade? Quantos leram diariamente as publicações estrangeiras sobre a sua área? Quantos é que compram diariamente um jornal nacional? Quantos se preocuparam em estudar a empregabilidade do seu curso superior e respectivo mestrado? E por fim, quantos é que já tiveram a iniciativa de partirem ao desafio e, vendo que não têm hipótese de realização profissional a curto prazo na sua área, decidiram trabalhar por conta própria?


No entanto, percebo e concordo com aqueles que marcaram presença na manifestação pelo fim dos falsos recibos verdes, dos horários de trabalho de 10 e 12 horas diárias, dos trabalhos qualificados pagos com ordenados baixos e da prepotência de muitos patrões, que continuam, principalmente fora dos grandes centros urbanos, a tratar os funcionários com base no berro, no insulto e na falta de respeito.

 

Todos precisamos de fazer uma autocrítica e pensar como o estado pode ajudar, numa altura de crise, a juventude a realizar-se profissionalmente e a conseguir emancipar-se. Estas manifestações bem que podem ser um começo.

16
Out11

Já sem angústia.

teresanicolau

Falaram-me de missão. Sempre me interroguei qual seria a minha. Andei todos estes anos, a pensar que não a teria. Sem essa força de ser a primeira, ou a vontade de fazer malas e zarpar ao outro lado do mundo, coloquei-me nesse patamar simples da normalidade, para não sofrer. E ser normal também é útil. Se não houvesse tantos normais no mundo, ninguém seria brilhante para nos poder encantar. Ninguém pagaria impostos todos os dias, nem passaria os dias a buzinar na estrada, ou a beber uma bica, com o pastel de nata fora de orçamento.

Mais uma vez tenho de falar dessas pessoas que me vão aparecendo. Entre abraços sinceros e sorrisos que nunca mentem, os "Portugueses Extraordinários" (RTP) lá me foram deixando alguma inquietação de me sentir apenas mais uma pessoa. Foi preciso conhecer o Carlos (reportagem  que passa a 23 Outubro) e entender finalmente que, até na tarefa diária, podemos cumprir. Tive então essa sorte de perceber que cheguei aqui, a este lado da minha profissão de jornalista para entender isso. Sorte sim, a de poder estar a fazer este programa, de ter sido desafiada pela coragem de alguém. Até parece que alguma coisa, nem sei bem qual se cumpre. Uma vez em desabafo, disse a uma senhora chamada Beatriz que tinha um gato que já morreu e que gostava muito de mim (eu sei), que o melhor se calhar, era sair do jornalismo. Tive como resposta: não desista, é boa mensageira. Juntando isto e mais aquilo e depois de saber que a culinária só servirá para o prazer, acho mesmo que encontrei a missão. Passo a mensagem de pessoas que não são normais, como eu.

Já sem angústia.

De pensar que falhei na vida.

12
Out11

Andam a dobrar a juventude

Nuno Miguel Guedes

Talvez seja por lidar com as palavras como ofício mas a verdade é que gosto de estar atento ao modo como as pessoas conversam. Não se trata de bisbilhotice , até porque temo que seja cada vez mais raro encontrar seres humanos com algo de relevante para dizer; não, interessa-me neste caso mais a forma do que o conteúdo. Gosto de saber como a língua é usada, as músicas sortidas das frases, os diálogos improváveis, algumas expressões geniais. É um exercício inofensivo, barato, portátil (praticável em qualquer paragem de autocarro, café ou repartição de finanças) e sempre útil para quem escreve.

Infelizmente, a última experiência deixou-me aterrorizado. Descobri, sem margem para erro, que os adolescentes da franja etária 12-16 não têm voz própria: alguém faz a dobragem dos seus diálogos.

 

Parece um mau argumento de um filme de Woody Allen, mas é a minha convicção. Explico: dediquei-me há uns dias a ouvir a forma como a minha filha (14 anos) e as amigas conversavam. O resultado foi traumático. A entoação e as expressões-tipo eram traduções selvagens do modo de falar das teenagers americanas. Um exemplo clássico encontra-se nas formas descritivas:«A stôra de Inglês é, tipo, chata», em que 'tipo' substitui o bordão 'like' («She was, like, you know...»); as interjeições a mesma coisa: «E vocês viram o cabelo do Luís? Oh meu Deus, é sei lá, tipo – horrível?», em que a interrogação significa na verdade uma afirmação. Qualquer infeliz que tenha assistido a um episódio em português da Hannah Montana sabe do que estou a falar.

 

Não me entendam mal, leitores: não sou um empedernido reaccionário linguístico. Não acho que os adolescentes devam falar com tiradas à Pai Tirano («Ó inclemência! Ó martírio!»). Pelo contrário, sei que a língua é viva e objecto de fácil contaminação, o que a torna apaixonante (e por isso não susceptível de a formatarem com «acordos» mas isso são outras lutas). Só tenho pena é que os jovens tenham preguiça de formar a sua própria gíria, os seus próprios bordões e manias de dizer que os afastem do linguajar dos adultos. Isto é uma dobragem transladada do americano, que a não ser contrariada poderá no limite fazer com que qualquer dia um dos versos  mais famosos de Camões seja lido «Amor é um fogo que arde, tipo, sem se ver».

 

Desdobrem-se, por favor.

12
Out11

Se tiveres sorte

José Maria Barcia

Imagina estares triste. Estás só, com os teus pensamentos. E sentas-te sozinho num banco de um jardim qualquer. Se tiveres sorte alguém vai ter contigo e diz-te que estás triste. Tiveste sorte porque alguém te viu e viu essa tua tristeza. E o diálogo é assim:

 

Ela: então estás triste.

Tu: sim,  estou – respondes com surpresa de ainda encontrares pessoas assim.

Ela: sabes que em África todos os dias morrem pessoas.

Tu: pois – pensado que afinal não tiveste tanta sorte – é verdade.

Ela: e todos os dias há guerras, fome, desgraças e por aí adiante.

Tu: sim – e começas a pensar em responder mal e ir embora.

Ela: mas sabes de uma coisa? Nada disso é tão grave como as tuas preocupações.

 

E aí, tu sorris. Porque te encontraram. Porque olharam para ti e viram a tua tristeza. E mais importante, porque disseram o que querias ouvir. Logo depois, parece que melhoras. Afinal não estás sozinho com as tuas preocupações. Encontraste alguém que não quis saber porque estavas triste mas percebeu porque estavas triste.

Uns tempos depois essa pessoa vai-se embora da tua vida e nunca mais a vês. Tiveste sorte. Às vezes é só isso que precisas, de um pouco de sorte. E de alguém que perca tempo a ajudar-te.

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Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".

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