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Polaroid

Polaroid

09
Nov11

Vida: o mais difícil desafio.

Nuno Miguel Guedes

Acordar.

Levantar a custo, o ritmo do corpo imediatamente acinzentado, lento e pegajoso como o dia que se entrevê da janela. O peso irreversível da insónia que nos tolheu a noite, os gestos  gelatinosos que se agarram às mãos e ao rosto, cortesia do comprimido para dormir que não resultou. E devagar entrar na rotina que nestas alturas surge como um refúgio da nossa vida, mesmo os minutos mais previsiveis e medíocres que nos dão a sensação de que por uma fracção de tempo o mundo não está contra nós: o dono do café que se adianta em silêncio ao nosso pedido habitual, as caras que sabemos irão morrer ali um dia, as piadas gastas e as notícias inúteis que nos garantem que nada mudou e que perversamente tudo irá ter solução.

 

O carro, o trânsito, os insultos em surdina, o pensamento a voar e a ser preso constantemente pelo quotidiano feio, as piores ideias que atravessam a nossa cabeça, desistir, descansar. As citações das palavras mais amargas que nos surgem durante o dia, durante o regresso, «home is so sad» dizia o poeta e com razão. E a internet que falta, e a luz que foi cortada, e os amigos a quem falhámos, e a nossa vida a recuar, e as saudades de quem já não nos pode ajudar, e o mofo dos amores velhos pegado à roupa, e o pavor de já ter perdido a capacidade de amar pegado ao corpo, e o desejo urgente da escuridão, da ausência de luz, que o despertar demore porque tudo amanhã será igual.

 

E no último minuto, no último segundo antes do cerrar dos olhos, antes dessa mortalha provisória que é o sono ter a força e a coragem para dizer: meu Deus, obrigado por este dia. 

08
Nov11

can't buy me love

Ana Santiago

Se eu escrevesse numa revista feminina e a minha cara andasse a passear de autocarro, como na América, este texto chamar-se-ia muito provavelmente: “Como fazer vida de rica sem dinheiro” ou “Dez maneiras para viver à grande sem dinheiro”. Se fosse escrito em inglês, começaria por “How to…”, esse estilo de incomparável utilidade que tanto nos pode ajudar a perder dez quilos numa semana, como a conquistar o marido da amiga.

Mas como a escrita tem andado escassa, tal como o dinheiro na maioria das carteiras dos nossos empresários e publishers, decidi investir nas mágoas de grandeza - a doença que invadiu as artérias desta cidade, Lisboa que é a que melhor conheço, e das vidas dos pequenos urbanos, que são os que mais sofrem e riem em cima de si mesmos e das suas desgraças, e nos quais eu me incluo. Andamos cheios de mazelas, calos na criatividade de tanto caminharmos, nódoas negras dos encontrões e atropelos aos nossos caracteres escritos, às nossas devoções e paixões. Os mais afortunados têm empregos, os mais aflitos têm trabalhos no regime de cargas e descargas pesadas, e os mais desenrascados têm ambos. (Não vou falar dos desempregados, porque quebra-se a futilidade deste texto). Todos nós ainda estamos para saber como vivemos e chegamos ao fim do mês sem necessidade de voltarmos para casa dos pais. Mas andamos felizes e contentes ainda assim. Não somos muito normais. Ainda agora no Facebook “disse” que ia a mais uma festa de abertura de um bar no Cais do Sodré. A vida é bela. No outro dia fui jantar sushi e bebi cosmopolitan. Claro que no dia anterior tingi o cabelo com tinta do supermercado, descansada porque há uma actriz linda e boa, da série Lost, que mente magnificamente na publicidade a dizer que também o faz. Dez euros e noventa cêntimos, em vez dos cento e tal que gastava há uns anos a fazer highlights, dá para fazer uns estragos de Cosmopolitans de vez em quando e, a bem dizer, só o olhar clínico de um profissional perceberá que o castanho chocolate que trago ao vento não é igual aos tons que a expert em fashion color me aplicava no Toni & Guy.

Mas este texto começou há uma semana e tal quando um amigo pequeno urbano, recentemente migrado para a capital, me confidenciou: “Gostava de ter dinheiro para fazer a vida que levo”. Eu acho que este início de texto, escrito na rua, à esquina de uma festa, diz tudo.

Para não estragar a frase, que se ele morrer primeiro eu gostaria de escrever no seu obituário, resta-me pedir desculpa a todos os que ao ler este texto pensavam que iam encontrar dez maneiras de fazer vida de rico sem dinheiro. Mas é simples. Substituam neste texto, à medida das vossas tentações, a tinta do cabelo por outras coisas das quais em tempos achavam que não conseguiam abdicar, e os cosmopolitans e o sushi por outras tantas de que gostem ainda mais, e têm o segredo. É a New Age dos pobres de ouro, mas ricos em sonhos. Só não percam é o espírito.

06
Nov11

Exercitar o coração.

teresanicolau

Gosto tanto de Domingos. Sempre gostei de acordar antes da hora da preguiça, porque o almoço merece mais cuidados, quando é de receber a família, preparar a couve lá da terra e as carnes fumadas cheias de um sabor que só se pode experimentar uma vez por semestre. O fresco que já chega pelo Novembro soalheiro, dá vontade de calçar uns ténis e ir a correr comprar a última salsa esquecida, em passo apressado como se o leite creme estivesse ansiosamente à espera do ferro quente. Gosto ainda mais de estar sentada à mesa, na conversa que não diz nada entre as garfadas cheias de feijão e os copos logo vazios. O Domingo é dia preferido, porque a mente descansou, porque o tempo se esticou, porque os sinos tocaram e a cidade parou.

Neste Domingo, o café pediu o passeio pelo bairro daqueles que se faziam em infâncias descansadas para comer o gelado da semana e para vestir a roupinha especial. Hoje, mesmo que sem direito a sapatos novos a marcarem os pés, foi o coração que ficou assim um bocadinho dorido. Domingo é dia em que muitos dos pacientes residentes no Centro do antigo Júlio de Matos saiem à rua, para passear. Andam pelo bairro, muitas vezes aos pares, entre amigos, a cumprimentar as pessoas que nem se dignam a ouvir o "Boa Tarde". E sim claro, logo a seguir é hábito haver pedido: uma moedinha... ? E sim claro, ninguém tem essa moedinha, que o multibanco só dá a partir de notas de 10 euros e já não há trocos para nada. Dois desses senhores, de sorriso aberto, aproximaram-se então da nossa mesa, para o tal cumprimento feliz e sim: "Um cafézinho para mim e outro para o meu amigo? Pode ser?" Lá então ganharam direito a sentarem-se na esplanada de uma das pastelarias mais badaladas de Lisboa, perante a estupefacção do funcionário que gritava: "E então, quem paga os cafés?" Tive de levantar o braço, como na escola primária. No final dos seus cafés, os dois senhores, do alto da sua alegria, fizeram questão de dar um valente aperto de mão a todos nós. Um deles, quase em segredo, aproximou-se mais de mim e disse muito baixinho: "Deus a abençoe".

Bastou isso. Para exercitar o coração.

04
Nov11

Telegrama.

Tomás Vasques

O governo grego está à beira do fim stop a democracia na Grécia está à beira do fim stop a democracia na Europa está à beira do fim stop o Euro está à beira do fim stop A União Europeia está à beira do fim stop Preparem-se para o pior stop.

02
Nov11

Requiem for a Dream

José Maria Barcia

Era um vez uma sala em branco. E de repente, sem aviso prévio, uma música. E as janelas abriram-se ao toque do som. Uma de cada vez, e depois a porta. Esta bateu contra a parede deixando um buraco. A porta partiu-se.

 

Tinha entrado alguém. Tinhas ficado lá. E a música não parava mas não existia. Tu sentias a música, eras a música. As portas e as janelas abriram-se porque tu quiseste. A pessoa entrou porque tu quiseste.

 

Entretanto, o volume aumentou. Contagiado pela música, tu fugiste. Não por cobardia mas porque chegou a hora. A música obrigou-te. Largaste tudo e correste. Não sabias para onde ir mas tinhas a certeza do teu destino. E correste. E correste. A música não te largava.

 

Chegaste ao teu sítio. Já lá tinhas estado mas nunca te tinha dito nada. Mas hoje era diferente. Hoje as coisas faziam sentido. Enquanto recuperavas o fôlego, a tua cabeça parecia explodir. A música aumentava à medida que o teu coração bombeava sangue para o resto do corpo. Estavas em êxtase. Hoje as coisas faziam sentido. Sabias para onde tinhas de correr. O local onde estavas era o teu destino.

 

Até este dia, a tua vida era normal. Meio perdido meio cansado, ias fazendo o teu dia-a-dia com toda a normalidade exigida. Mas a música, a tua música, tu. Hoje era diferente. Fugiste, não por cobardia mas por necessidade e correste até mais não. Dizem que foste até ao outro lado do mundo.

Aquele sítio que não te dizia nada até lá chegares nesse dia.

 

E depois fizeste aquilo que para lá foste fazer.

Não deixaste que ninguém te dissesse não. Ninguém te deitou abaixo e coitados dos que tentaram. Foste herói, foste salvador. Foste um exemplo e deixaste amor e ódio. Não foste indiferente e isso é o nosso sonho.

 

Quem te julgaria capaz de mundos e fundos quando antes estavas numa sala, perdido e cansado?

Pelos vistos, tu. Pois ouviste a música que te mandou ir. Porque aquele que entrou na sala eras tu a dizer para ires. E foste, se foste.

 

Enfrentaste-os com coragem e classe, como poucos o conseguem fazer. Mostraste-me que basta ser a música que se quer ouvir e ensinaste-me a escolher a melhor música.

E no fim, voltaste. Ainda tinhas mais uma coisa a fazer de volta à sala branca.

 

Voltaste ao cansaço crónico de saberes o que fizeste mas já não o fazias. Sentiste-te perdido porque a sala branca era pequena demais. Já não podias correr porque a música era diferente e e não tinhas para onde ir.

 

Tinhas só mais um objectivo e cumpriste-o. Pagaste por ele. E pagaste-o bem.

Apesar de teres deixado muito na sala branca onde estou agora, ainda haveria mais para deixares. E hoje, que sais da minha sala branca, sais porque fui eu a abrir a janela. Hoje, quero-te deixar ir. Até uma próxima quando nos encontrarmos numa correria.

 

Adeus, Mãe.

 

 

Texto dedicado à minha Mãe, no dia de todos os santos. Ela há de ser um deles.

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Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".

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