José Maria Barcia @ 10:17

Sex, 18/11/11

Recomendo. Fui ver ontem e é muito divertido. Além do aspecto cómico tem também certos aspectos ''para pensar'' como diz o folheto.

 




Nuno Miguel Guedes @ 12:47

Qua, 16/11/11

Da cartografia dos afectos de cada um existe tanto que contar. Todos temos os nossos lugares de prazer ou de dor, especiais e únicos, que deixamos ou regressamos como a vida nos sugerir. São cidadelas secretas ou partilhadas mas sempre só nossas pelo muito que significam. Podem ter a forma de canções, paisagens, vozes, olhares, palavras, sítios.

Hoje uma dessas escalas pessoais celebra trinta anos de existência. Para o resto do mundo, nada de metafísico ou poético: trata-se apenas de um restaurante em Lisboa. Para mim é um lugar que contém muito da minha vida. Permitam que fale dele, não porque necessite de publicidade (trinta anos são publicidade que baste) mas pela dádiva que me oferece.

Frequento-o há 21 anos, contas feitas de cor e à pressa. Mas esse tempo tem tanto de mim e dos outros que comigo lá passaram que se confunde com os meus dias. Lá me apaixonei muito e muitas vezes, fiz amizades, trabalhei, lembrei amigos desaparecidos, celebrei aniversários. Lá pedi em casamento, fui pedido em casamento, lamentei o casamento, ajudei a casamentos. Para lá levo imediatamente todos os que quero trazer para a minha vida, porque lá ir equivale a ter acesso a uma porta para o meu mundo mais intimo.

 

A mera antecipação de saber que irei àquela rua estreita perto do Príncipe Real enche-me de alegria porque significa um reencontro com o melhor de mim mesmo, que está na capacidade de ser leal às amizades e de ver isso retribuído sem esforço ou cerimónia. Não é por acaso que o proprietário é um dos meus mais antigos e estimados amigos: quando lá vou sei naturalmente o prato que sempre irei escolher: um carinho altruísta e divertido que não vem na ementa. E como se isso não bastasse, ainda se come muito bem...

 

É lá que ainda me recolho quando quero fugir à tristeza. Chego muitas vezes fora de horas, como a própria infelicidade, sem me anunciar ou estar preparado. Mas sei que irei ser recebido sempre da mesma maneira, como se fosse sempre a primeira e a última vez, como se o ontem e o amanhã não existissem mas apenas aquele momento especial e único em que se comunga com entusiasmo o que nos vai na alma. É também o meu destino para ouvir histórias mirabolantes ou conspirar suavemente com os amigos em delírios ébrios de poesia e de virtudes maliciosas. Ali a Académica foi campeã europeia várias vezes e a monarquia alegremente restaurada.

 

No denso mapa do coração nascem ao longo da vida muitos lugares, outros restaurantes. Mas nenhum como o Comida de Santo irá saciar de forma tão perfeita a fome que tenho de amizade. E isso, apesar de não ser incluído na conta, é uma dívida que nunca poderei pagar.




teresanicolau @ 21:30

Dom, 13/11/11

Uma ida ao supermercado e a bancada do peixe. Como luzinhas de Natal, lá estavam, os camarões dinossauricos, de olhos preto-vampiro e bigodes burgueses, a chamar os hábitos dos artistas no sul de França. Dito assim, só aqueles camarões pareciam ter o poder necessário para me retirarem da amargura dos dias de chuva, do corte dos subsídios, da reserva que gritava aos meus olhos, no mostrador do automóvel. Sem ter muito mais do que esse desejo, Os camarões-tigre lembravam-me as tardes quentes da Costa do Sol.

Maputo e uma marrabenta a estourar entre cada palmeira. Isso sim, dias felizes de sorrisos ingénuos do senhor Zau Zau, o taxista que sempre à mesma hora, estava à porta do hotel, juntinho à igreja que tinha os sinos misturados com as orações da mesquita mais à frente. O senhor Zau Zau, meu amigo até hoje, mesmo que nunca mais o tenha visto, gostava de me levar sacos de linchias maduras para completar o pequeno almoço, mesmo que o sumo de manga, já me tivesse satisfeito. Houve dia então, que lhe criei a maior surpresa da vida, nesse mesmo dia em que o meu chefe pediu em cima de uma hora qualquer, um direto de um lugar diferente, um retrato certo das ruas de Maputo, com direito a entrada em antena dali a meia hora. E sim, foi o herói Zau Zau que me salvou, em pressa estonteada, tanto tanto que ia caindo do seu volante enfeitado de táxi arranjadinho. "Senhor Zau Zau, vamos a sua casa fazer um direto para a rádio,pode ser? Conhecer a sua mulher, que é cabeleireira, depois de alguns anos em Portugal, onde conseguiu juntar dinheirinho pequeno para montar o seu salão de beleza, e a sua filha que chegou há pouco da África do Sul, onde trabalhava a varrer as ruas e a despejar os caixotes do lixo, mas onde nem se deu muito bem, com as saudades da galinha com molho de coco da mãe. E sim à sua casa, lá no caniço, que é o mesmo que bairro de lata como se diz na Europa, e que tem um buraco de mais de seis metros de profundidade a separá-lo das vivendas luxuosas dos guerreiros da luta armada e da independência, que se esqueceram de fazer a rede de esgotos e o sistema diário de recolha do lixo. Vamos lá, senhor Zau Zau?" E assim, de pedido feito em desespero cuidado, lá fui eu, uma menina de tão longe (como dizia o senhor Zau Zau) à casa da família que melhor me recebeu na África inteira. Antes mesmo de chegar, lá ligou à mulher, a pedir não sei o quê e uma toalha e mais uns amendoins e assim. À hora certa, lá estava eu a fazer o retrato do anexo construído entre zinco e madeira pregada, que a senhora Adelaide tinha enfeitado com umas fitas e uns balões coloridos, uma porta aberta cheia de gente só para ver quem se atrevia a ir ali, áquele lugar, que as autoridades locais se tinham esquecido de pôr no mapa. Lá, nesse direto, se disse, daquele mundo separado pela falta de zelo, da coragem diária de cada um, que todos os dias, ou vai vender sapatos usados para o mercado, ou faz caixinhas de madeira com pintinhas brancas, a imitar marfim, da mãe de 16 anos com três filhos e da menina que um dia queria ser médica para abrir um hospital para os amigos. E depois, no final desse momento de rádio que atravessou Índicos e Atlânticos, as lágrimas do senhor Zau Zau, meu amigo até hoje, saíram para dizer: "Obrigada por ter vindo à minha casa."

 

Depois lá acordei.

Entre a fantasia de ter sonhado com a compra do camarão tigre e a memória verdadeira que me trouxe o sonho de uma das épocas mais felizes da minha vida. E porque as memórias são suspiros tão felizes, acabei por fazer ervilhas com ovos escalfados para o jantar. Apenas porque outra memória boa se adivinhava ao cheio dos coentros frescos. Mas essa, fica para outro dia.




José Maria Barcia @ 11:10

Qui, 10/11/11

Ontem, no lançamento do livro ‘’Portugal do Avesso’’, o autor, Henrique Raposo foi acusado de ser um ‘’puto insolente’’. Ora, estes fazem falta. Em tudo o que é este país. Aliás, não fica de todo mal dizer que existe um falta de tomates generalizada.

O Henrique Raposo tem 32 anos, fazendo dele um puto. O Henrique é insolente porque não tem um respeitoso respeito aos mais velhos. Seja Cavaco Silva que vai para Nova Iorque ou José Sócrates lá para os lados de Paris.

Como está bastante explícito no título é de pessoas assim que se precisa. Aquelas que podem fazer coisas novas, seja a escrever (que é um trabalho, muitas vezes mais duro que acartar caixotes), seja a ir contra a corrente do estabelecido.

No Dicionário de Língua Portuguesa, ‘’insolência’’ significa ‘’arrogância, atrevimento, maneira insólito de proceder’’. Ou seja, o insolente é aquele que arrisca a ser diferente, não tem medo de agir de outro modo e quem sabe, acertar.

São precisos mais insolentes. Não digo sermos todos como o Henrique, mas como o próprio diz, é melhor o exemplo que a palavra. E o Henrique é um bom exemplo disto mesmo.

Portanto, procura-se malta assim. Alguém cuja qualidade é a insolência. Alguém que consiga dizer ao patrão que ele está errado por estar preso a práticas do passado; um patrão que diga aos empregados que trabalham mal sem medo de sindicatos preocupadíssimos com os direitos dos trabalhadores de trabalhar mal; alguém na Assembleia da República que se levante e denuncie os que fazem mal, sejam da própria bancada ou não, pouco interessa pois a incompetência não olha a cores; nas faculdades, alunos que não tenham medo de criticar professores, directores e demais membros porque a idade não é de todo limitativa à possibilidade de crítica. Aliás, tomara a todos que reservassem um pingo de juventude para o resto da vida.

Insolentes de todo o mundo, uni-vos!

 




Nuno Miguel Guedes @ 21:38

Qua, 09/11/11

Acordar.

Levantar a custo, o ritmo do corpo imediatamente acinzentado, lento e pegajoso como o dia que se entrevê da janela. O peso irreversível da insónia que nos tolheu a noite, os gestos  gelatinosos que se agarram às mãos e ao rosto, cortesia do comprimido para dormir que não resultou. E devagar entrar na rotina que nestas alturas surge como um refúgio da nossa vida, mesmo os minutos mais previsiveis e medíocres que nos dão a sensação de que por uma fracção de tempo o mundo não está contra nós: o dono do café que se adianta em silêncio ao nosso pedido habitual, as caras que sabemos irão morrer ali um dia, as piadas gastas e as notícias inúteis que nos garantem que nada mudou e que perversamente tudo irá ter solução.

 

O carro, o trânsito, os insultos em surdina, o pensamento a voar e a ser preso constantemente pelo quotidiano feio, as piores ideias que atravessam a nossa cabeça, desistir, descansar. As citações das palavras mais amargas que nos surgem durante o dia, durante o regresso, «home is so sad» dizia o poeta e com razão. E a internet que falta, e a luz que foi cortada, e os amigos a quem falhámos, e a nossa vida a recuar, e as saudades de quem já não nos pode ajudar, e o mofo dos amores velhos pegado à roupa, e o pavor de já ter perdido a capacidade de amar pegado ao corpo, e o desejo urgente da escuridão, da ausência de luz, que o despertar demore porque tudo amanhã será igual.

 

E no último minuto, no último segundo antes do cerrar dos olhos, antes dessa mortalha provisória que é o sono ter a força e a coragem para dizer: meu Deus, obrigado por este dia. 




Ana Santiago @ 01:30

Ter, 08/11/11

Se eu escrevesse numa revista feminina e a minha cara andasse a passear de autocarro, como na América, este texto chamar-se-ia muito provavelmente: “Como fazer vida de rica sem dinheiro” ou “Dez maneiras para viver à grande sem dinheiro”. Se fosse escrito em inglês, começaria por “How to…”, esse estilo de incomparável utilidade que tanto nos pode ajudar a perder dez quilos numa semana, como a conquistar o marido da amiga.

Mas como a escrita tem andado escassa, tal como o dinheiro na maioria das carteiras dos nossos empresários e publishers, decidi investir nas mágoas de grandeza - a doença que invadiu as artérias desta cidade, Lisboa que é a que melhor conheço, e das vidas dos pequenos urbanos, que são os que mais sofrem e riem em cima de si mesmos e das suas desgraças, e nos quais eu me incluo. Andamos cheios de mazelas, calos na criatividade de tanto caminharmos, nódoas negras dos encontrões e atropelos aos nossos caracteres escritos, às nossas devoções e paixões. Os mais afortunados têm empregos, os mais aflitos têm trabalhos no regime de cargas e descargas pesadas, e os mais desenrascados têm ambos. (Não vou falar dos desempregados, porque quebra-se a futilidade deste texto). Todos nós ainda estamos para saber como vivemos e chegamos ao fim do mês sem necessidade de voltarmos para casa dos pais. Mas andamos felizes e contentes ainda assim. Não somos muito normais. Ainda agora no Facebook “disse” que ia a mais uma festa de abertura de um bar no Cais do Sodré. A vida é bela. No outro dia fui jantar sushi e bebi cosmopolitan. Claro que no dia anterior tingi o cabelo com tinta do supermercado, descansada porque há uma actriz linda e boa, da série Lost, que mente magnificamente na publicidade a dizer que também o faz. Dez euros e noventa cêntimos, em vez dos cento e tal que gastava há uns anos a fazer highlights, dá para fazer uns estragos de Cosmopolitans de vez em quando e, a bem dizer, só o olhar clínico de um profissional perceberá que o castanho chocolate que trago ao vento não é igual aos tons que a expert em fashion color me aplicava no Toni & Guy.

Mas este texto começou há uma semana e tal quando um amigo pequeno urbano, recentemente migrado para a capital, me confidenciou: “Gostava de ter dinheiro para fazer a vida que levo”. Eu acho que este início de texto, escrito na rua, à esquina de uma festa, diz tudo.

Para não estragar a frase, que se ele morrer primeiro eu gostaria de escrever no seu obituário, resta-me pedir desculpa a todos os que ao ler este texto pensavam que iam encontrar dez maneiras de fazer vida de rico sem dinheiro. Mas é simples. Substituam neste texto, à medida das vossas tentações, a tinta do cabelo por outras coisas das quais em tempos achavam que não conseguiam abdicar, e os cosmopolitans e o sushi por outras tantas de que gostem ainda mais, e têm o segredo. É a New Age dos pobres de ouro, mas ricos em sonhos. Só não percam é o espírito.



Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".
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