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Polaroid

Polaroid

26
Nov11

only you

Ana Santiago

"O Homem não é um ser monogâmico". A primeira vez que fui assombrada por esta ideia antropológica, perdida que estou já no número de vezes que a ouvi da boca dos cientistas sociais, tinha 9 anos e foi quando li, às escondidas, o romance de Jorge Amado sobre a Dona Flor e os seus dois maridos. É certo que um deles estava morto, mas aos 9 anos isso era um pormenor.

Costumo usá-la, sobretudo, para arreliar a minha amiga G., a pessoa que até hoje mais me ensinou sobre fidelidade, ou sempre que pretendo sabotar-me e achar que tenho muito amor para dar. Não dá resultado. O cardiologista disse que o meu coração está com uma aorta qualquer a dar de si, o que significa que não é tão elástico como eu pensava e está, sinto-o, farto que eu o engane. Os cientistas sociais podem atirar-se ao chão a rir, mas eu não quero ir parar ao bloco operatório de coração aberto e ficar com uma cicatriz que me estrague o decote.

O nosso desejo visceral de poligamia, ainda que não passe na maioria das vezes de uma conspiração silenciosa (e às vezes sem efeitos colaterais) das hormonas e do medo da solidão, é uma coisa que inscrevemos na mente com os traços mais licenciosos da nossa personalidade para enganar a alma. E a alma, tal como o coração, também está farta disso. Faz-se de parva, deixa-nos dizer e fazer disparates, mas reclama muitas vezes. Verdade. É só uma questão de prestar atenção ao nosso corpo. Quando ele já não bate certo com o coração, os músculos doem, a sinusite ataca, os pulmões andam em sobressalto, ganhamos conjuntivites e a barriga incha. À falta do nosso juízo, a alma dá-nos lições de anatomia emocional.

A poligamia, seja ela praticada, suada ou imaginada, é um vírus mutante. Difícil de controlar. Começa no flirt e pode acabar na terapia, clínica ou etílica (dependendo do nível de consciência do incubador). A monogamia não é a cura. Não é um comprimido ou vacina que se tome, e já está. Era bom. Não era. A monogamia precisa que o doente tenha desejo da cura. É uma coisa em que se investe muito tempo, uma relação prolongada com o sofá roubado à psicanálise. Freud não explica. Jung pode ajudar, mas só nós nos podemos curar. E quando depende tudo de nós, é uma solidão tramada e lá voltamos à polimania. Círculo vicioso.

Quando aterro no sofá, imagino a monogamia como o sítio onde desejamos repousar, acostar a ver passar todos os seres que também podiam ser “nossos”, mas que deixamos seguir porque não perseguem o mesmo destino. A monogamia é isso. É um destino a que só chegamos nós. Tu e eu. Ele e ela(e). Ele(a) e ela.

A monogamia começa sempre por um flirt, por um sorriso, mas depois, como diz o João Gomes de Almeida na sua ode à irracionalidade: “Amor que é amor começa num sorriso e acaba em ti”. Tu. O destino final só tem um tu. Depois de muitos sorrisos para vós, o amor só tem futuro se conjugado contigo. Only you, que é como se diz monogamia em americano.

 

(Havemos de lá chegar)

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O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".

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