Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Polaroid

Polaroid

19
Dez11

a segunda costela de Adão

Ana Santiago

“Ó pá Ana, não faças isso!”. O N. sentiu-se incomodado com o meu ajeitar do decote enquanto subíamos a rua a tagarelar sobre a vida, o amor e as dívidas. “Hã? Mas para mim és como um irmão!”. Errado. O N. é meu amigo. “Não sou gaja!”, esclareceu. Andava tão feliz por finalmente ter uma mão cheia de amigos do sexo masculino que não dei pela diferença. Sempre fui rapariga de amizade no feminino. Daquela que dura desde o infantário, ou desde ontem, até hoje. Raramente ficou uma para trás; vou acumulando amigas de várias sedes de conhecimento, que depois faço questão de reunir, imaginando que acabaremos um dia todas juntas no lar. Sou da amizade feminina selvagem e tribal, daquela que dá conta de todas as coceiras emocionais e hormonais que nos sobem dos pés à cabeça, das dores de sangue mensais, das dúvidas entre nuances e banho de cor, entre sair de saia justa ou de calças largas, entre a maternidade e a modernidade. Mas ando tão feliz com os meus amigos homens que às vezes até penso que podemos ir à casa de banho juntos.

Durante anos o amigo homem estava encerrado numa espécie de ‘diálogo entre os dois sexos com cordialidade e intimidade q.b.’ Afecto também, que sempre fui dada a abraços, mas com muita reserva mental, porque conscientemente considerava que ele nunca iria compreender-me e acolher as minhas angústias e alegrias com a mesma empatia e pachorra sincera das minhas amigas. Desde há poucos anos, contudo, creio que foi quando comecei também a gostar de vinho (?!), não sei o que me deu, tornei-me bi. Bi-amiga, bi-amorosa, bi-fraternal, não sei que nome dê a isto. Percebi que sou amiga da pessoa e não interessa o género. Faz o meu género quem me sente, quem sofre e ri comigo.

O amigo homem de que falo não é colorido, benefícios só talvez o meu esparguete com mexilhão picante. Não é namorado disfarçado de amigo, dá muito menos trabalho que isso. Também já deu para perceber que os meus amigos não são irmãozinhos inocentes que não olham para o decote. Não são eunucos ou distraídos. Aliás, são quase todos ‘womanizers’. E cheios de dúvidas e receios. A vida não está fácil para os homens. Há dias um outro N. dizia-me: “Tu ainda não percebeste que estás numa posição privilegiada?”. Eu acreditei. Só um homem, amigo, para nos dizer isso com legitimidade.

Deus fez o mundo em seis dias e não é verdade que descansou ao sétimo; tirou o dia para criar o amigo homem à sua imagem e semelhança. Deus, e acho que ainda não Lhe agradeci convenientemente, fala comigo através dos meus amigos e pensa comigo através das minhas amigas.

Eles dizem-me a que horas anda a minha biologia e o meu coração. Elas têm a mesma configuração hormonal e os mesmos problemas coronários. Eles aconselham-me a tomar medidas contra a minha natureza de nariz no ar, afastam-me dos perigos, apontam-me a felicidade e colocam-me no topo de mim. Elas fazem isso tudo comigo, mas juntas, de forma siamesa; compreendem-me, quase sempre, bem demais, somos iguais. Não fomos separadas à nascença, enquanto os homens são tão diferentes que existem, connosco, à distância. A mesma distância que não nos permite ir ao wc juntos, mas nos aproxima da realidade a 3D.

 

Ontem, depois de uma noite no masculino, com uma feminina lá no meio (eu), percebi que o melhor amigo não é o que nos compreende, mas o que ajuda a compreendermo-nos a nós próprios. E o amigo homem, tirado de uma (outra) costela de Adão, faz isso muito bem. E não precisa de ser um anjinho.

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Obrigadinho!

 

O Polaroid podia ter ganho o prémio de Blog Revelação do ano 2011 da TVI24, mas infelizmente vocês são uns leitores do caraças e não votaram em nós! Mesmo assim, vamos continuar a escrever, sendo que quem levou a taça foi o @ChicodeOeiras e a sua malta esquerdista! Já percebemos que vocês preferem o Mao ao amor e o Enver Hoxha aos nossos textos bonitos! . Agradecemos a vossa ajuda! Obrigadinho malta!


PS - O Zé Maria obrigou-nos a colocar no final disto: "mas continuamos a gostar de vocês".

Arquivo

  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2011
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D